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Caso Anna Freud – Mecanismos de Defesa

Tomarei como exemplo o caso de uma jovem mulher, empregada em uma instituição para crianças. Era filha intermediária de uma série de irmãos e irmãs. Durante toda a sua infância, sofreu veementemente inveja (do pênis), relacionada com seus dois irmãos (um mais velho e um mais novo), e de ciúme, o qual era repetidamente excitado pelos sucessivos períodos de gravidez da mãe. Finalmente, a inveja e o ciúme combinaram-se em uma feroz hostilidade contra a mãe. Mas, como a fixação de amor da criança era maior do que seu ódio, um violento conflito defensivo com os seus impulsos negativos sucedeu a um período inicial de desenfreada indisciplina e agressividade infantil. Temia que a manifestação de seu ódio lhe fizesse perder o amor materno, do qual não suportava ser privada. Também temia que a mãe a punisse e se criticava, da maneira mais severa, por suas ânsias proibidas de vingança. Ao ingressar no período de latência, essa situação de angústia e o conflito de consciência tornaram-se cada vez mais agudos e o seu ego tentou dominar tais impulsos de várias maneiras. Com vontade de resolver o problema da ambivalência, ela deixou aflorar um lado de seus sentimentos ambivalentes. A mãe continuou sendo um objeto de amor, mas, a partir daí, houve sempre na vida dessa paciente uma segunda pessoa importante do sexo feminino, a quem odiava violentamente. Isso facilitou a questão: seu ódio do objeto mais remoto não a atacava com um sentimento de culpa tão implacável quanto o que se manifestava, no caso da mãe.
Mas, apesar disso, o ódio deslocado era ainda uma fonte de grande sofrimento. Com o decorrer do tempo, apurou-se que esse primeiro deslocamento era inadequado como meio para dominar a situação.
O ego da menina recorreu então a um segundo mecanismo. Inverteu o ódio para dentro dela própria, quando até aí se relacionara exclusivamente com outras pessoas. A criança torturava-se com auto-acusações e sentimentos de inferioridade. Durante toda a infância e adolescência, até atingir a idade adulta, fez sempre tudo o que podia para colocar-se em desvantagem e lesar seus próprios interesses, abdicando de seus desejos e submetendo-se às exigências que lhe eram impostas por outras pessoas. Em toda a sua aparência externa, tornara-se masoquista, uma vez que adotava esse método de defesa.
Também essa medida provou ser inadequada, como recurso para dominar a situação. A paciente entregou-se então a um processo de projeção. O ódio que sentira pelos objetos femininos de amor ou seus substitutos transformou- se na convicção de que ela própria era odiada, menosprezada ou perseguida por aqueles. 0 seu ego, assim, encontrou alívio em relação ao sentimento de culpa. A criança traquina e rebelde, que alimentava sentimentos hostis contra as pessoas à sua volta, sofreu a metamorfose, convertendo-se em vítima de crueldade, negligência e perseguição. Mas o uso desse mecanismo deixou em seu caráter um permanente cunho paranóide, que constituiu uma fonte de enormes dificuldades para a moça, tanto na juventude como na fase adulta.
A paciente já era muito crescida quando veio a ser analisada. Não era considerada doente por aqueles que a conheciam, mas seus sofrimentos eram agudos. Apesar de toda a energia que o ego prodigalizara em sua própria defesa, ela não conseguira, realmente, dominar sua angústia e seu sentimento de culpa. Em qualquer ocasião que sua inveja, seu ciúme ou ódio estivessem em perigo de ativação, ela recorria invariavelmente a todos os seus organismos de
defesa. Mas os seus conflitos emocionais nunca chegaram a um ponto em que o seu ego pudesse ficar em repouso. Além disso, o resultado final de todos os seus esforços foi extremamente escasso. Conseguiu manter a fantasia de que amava a mãe, mas sentia-se repleta de ódio. Assim, desprezava-se e desconfiava de si própria. Não conseguiu preservar o sentimento de ser amada, que fora pelo mecanismo de projeção. Nem conseguiu escapar das punições de que tivera tanto medo na infância. Ao introjetar os impulsos agressivos, infligiu a si própria todo o sofrimento que anteriormente previra, sob a forma de castigos impostos pela mãe. Os três mecanismos que a paciente utilizou não puderam impedir o ego de permanecer em um estado de tensão e vigilância inquieto, nem o aliviaram das exageradas imposições que lhe eram feitas e dos sentimentos de tortura e aflição agudas que o flagelavam.

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Presente, futuro e psicanálise

A psicanálise continua sendo, com seus avanços, poderosa arma terapêutica de ampliação do conhecimento sobre cada um e sobre relações humanas.

Como dispor do tempo que ainda viveremos -esse é nosso desafio, universalmente humano. Vale para qualquer idade e qualquer tempo, desconhecido, que a vida nos reservará. O presente é o fim e o início de dois tempos, passado e futuro, e é nele, no trânsito entre nossas recordações e nosso destino, que temos o nosso dizer e fazer.


O futuro se ancora nas escolhas que fazemos hoje, dentre aquilo que a vida nos apresenta e nossas criações próprias. Vivê-lo com qualidade ou jogá-lo fora depende de nós. Nos é dado redimensionar e reorganizar em nós o passado, mas, óbvio, não o viveremos mais.
Passado e futuro são referências apenas do presente. É disso que trata uma psicanálise. Diferentemente do que muitos imaginam, o fazer psicanalítico contemporâneo não se refere a falar do passado para entender o presente.


Ao inverso, por meio das formas relacionais que alguém mostra na sala de análise pode-se reconstruir imaginativamente seu passado, não necessariamente o factual, vivido “de fato”, mas, sim, a narrativa que dele faz para si mesmo.


Mais do que explicar, refere-se a compreender -ou criar sentidos em que a própria mente é apenas virtualidade, uma protomente.
Mais do que conjeturar o passado, importa configurar graus crescentes de liberdade interior para o indivíduo lidar com o presente e com a trama que imprime às suas relações, se apropriando daquilo que se vai revelando verdadeiro em seu ser. A apropriação de sua singularidade radical, a favor da vida, pode-se dizer o escopo nuclear de um processo analítico.


Não se trata, por exemplo, de uma pessoa não sofrer, mas, sim, de desenvolver seus equipamentos, em auxílio a se desviar dos sofrimentos evitáveis e enfrentar os que não o são. É assim que podemos ajudar. Estamos mais instrumentados que na época de Freud.


Além dos outros grandes mestres, a psicanálise segue, como todo campo de saber, sendo construída num trabalho diário de muitas mãos. Na Associação Psicanalítica Internacional, que Freud fundou, convivem e conversam entre si diversos modos de pensar, sendo natural, num mundo em rede como o nosso, um influenciar o outro.
Mantém-se perspectiva plural, para a maioria, por vezes pluralista.
A psicanálise representa hoje a peça de resistência do estudo da subjetivação e da subjetividade humana e segue tendo enorme influência em inúmeras outras áreas.


Continua sendo, com seus avanços, uma poderosa arma terapêutica de ampliação do conhecimento sobre cada um e sobre relações humanas.
Possibilitando a atualização de sua existência a cada um, permanece como uma ferramenta preciosa na busca de uma vida psíquica de qualidade. Como cada um de nós, ela não está pronta, fechada em seu saber e fazer. Influencia e é influenciada pelo tempo e pelo espaço que a circunda.

* PLINIO MONTAGNA, mestre em psiquiatria, psicanalista, é presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), membro componente da Associação Psicanalítica Internacional. Foi docente da Faculdade de Medicina da USP. Fonte: Folha on line, 22/05/2011

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Freud explica: entenda sete conceitos básicos da psicanálise

O campo de conhecimento estudado por Sigmund Freud busca entender os significados do inconsciente humano.

Quem nunca se viu repetindo comportamentos que havia prometido deixar para trás? Ou fazendo coisas que prejudicam a si mesmo, por mais irracional que isso pareça? Quantas vezes você se espantou com uma palavra fora de contexto que saiu no meio de uma frase? E sonhos bizarros, quem não tem?

Todas essas situações, sem relação aparente entre si, podem ser explicadas pela existência de uma única instância psíquica, que subverte nossas intenções e vontades: o inconsciente. A humanidade deve a Sigmund Freud essa descoberta. Apesar das transformações sociais, culturais e tecnológicas dos últimos 120 anos, o método psicanalítico criado por Freud para lidar com o mal-estar inerente à condição humana segue atual.

Ao criar esse novo campo do conhecimento, Freud desenvolveu diferentes conceitos teóricos para sustentar suas pesquisas. Confira a seguir os termos essenciais da psicanálise:

Inconsciente
Freud demonstrou que a maior parte da vida psíquica se desenrola sem que tenhamos acesso a ela. Ali se encontram principalmente ideias reprimidas que aparecem disfarçadas nos sonhos e nos sintomas neuróticos.

Ego
A parte organizada do sistema psíquico que entra em contato direto com a realidade e tem a capacidade de atuar sobre ela numa tentativa de adaptação. O ego é mediador dos impulsos instintivos do id e das exigências do superego.

Id
Fonte da energia psíquica, é formado por pulsões e desejos inconscientes. Sua interação com as outras instâncias é geralmente conflituosa, porque o ego, sob os imperativos do superego e as exigências da realidade, tem que avaliar e controlar os impulsos do id, permitindo sua satisfação, adiando-a ou inibindo-a totalmente.

Superego
É formado a partir das identificações com os pais, dos quais assimila ordens e proibições. Assume o papel de juiz e vigilante, uma espécie de autoconsciência moral. É o controlador por excelência dos impulsos do id e age como colaborador nas funções do ego. Pode tornar-se extremamente severo, anulando as possibilidades de escolha do ego.

Pulsão
Conceito situado na fronteira entre o psíquico e o somático. A pulsão é a representante psíquica dos estímulos que se originam no organismo e alcançam a mente. É diferente do instinto, pois não apresenta uma finalidade biologicamente predeterminada, e é insaciável, pois tem relação com um desejo, e não com uma necessidade.

Sonhos
Caminho de ouro para o acesso ao inconsciente. A interpretação do conteúdo dos sonhos revela desejos e percepções que de outro modo não chegariam à consciência.

Complexo de Édipo
Entre dois e cinco anos, aproximadamente, a criança desenvolve intenso sentimento de amor pelo genitor do sexo oposto e grande hostilidade pelo do próprio sexo. Tais sentimentos geralmente são vividos com grande ambivalência. O conflito costuma declinar por volta dos cinco anos, e uma boa estruturação da personalidade depende de sua resolução satisfatória.

Fonte: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/11/freud-explica-entenda-sete-conceitos-basicos-da-psicanalise.html

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O retorno de Freud!

Depois de passar décadas no ostracismo científico, as teorias de Freud voltaram a aparecer nos laboratórios — desta vez, com o apoio da neurociência.

Era julho de 2008. A capa da SUPER estampava: “Terapia funciona?”, em frente à imagem de um Freud sisudo de sobrancelhas cerradas. E completava: “Sim, o autoconhecimento funciona. Mas Freud talvez não tenha nada a ver com isso”. Dentro da revista, a reportagem era ainda mais implacável com o barbudo de Viena: lia-se que as teorias de Freud não tinham embasamento científico, que o tratamento era longo e imprevisível, e que o austríaco tinha até inventado fatos quando elaborou suas teses. Ao final do texto, o pai da psicanálise aparecia (metaforicamente) roxo e inchado, de tanto que havíamos batido nele.

A verdade é que Freud andava desacreditado havia tempo. Nos anos 1970, o filósofo austríaco Karl Popper já tinha chamado a psicanálise de pseudociência – segundo ele, suas hipóteses eram muito amplas para serem testadas e, portanto, impossíveis de confirmar.

Céticos apontavam que ninguém tinha encontrado, no cérebro, a localização de áreas correlatas ao id, ao ego ou ao superego. Mulheres diziam que não, elas não tinham inveja do pênis, muito obrigada. O complexo de Édipo e o medo da castração pareciam ficção, contada para pessoas dispostas a gastar muito dinheiro por anos a fio com um tratamento não comprovado pela ciência.

“Sem dúvida, nenhuma outra figura importante da história esteve tão errada quanto Freud a respeito de todas as coisas importantes que disse”, escreveu o professor de filosofia canadense Todd Dufresne.

Criticá-lo passou a ser lugar comum, e o “Freudbashing” (“bater em Freud”, em tradução livre) se tornou quase um esporte. O desenvolvimento de terapias mais curtas e pontuais parecia trazer as verdadeiras respostas para todos os males da mente. E, para completar, os medicamentos psiquiátricos nunca haviam sido tão eficientes. A psicanálise tinha sido deposta para sempre.

Opa, para sempre?

Surpreendentemente, nos últimos anos, Freud ressuscitou para a ciência – e começou a ser resgatado do lixo científico. Em vez de focar nos detalhes da sua teoria, as pesquisas começaram a reparar que os grandes conceitos do austríaco – a existência do inconsciente, o significado dos sonhos, as repressões de sentimentos – não eram exatamente histórias para boi dormir.

Também surgiram estudos mostrando que as terapias inspiradas na psicanálise, que costumam ser longas e custosas, são as mais eficientes para tratar males mentais. E mais: até mesmo a neurociência apareceu para dizer que… bem, Freud explica.

Fluxogramas do bem-estar

Primeiro, é bom entender como a terapia freudiana funciona. Um tratamento clássico pode envolver de quatro a cinco sessões por semana, por meses ou até anos. O paciente deve falar livremente o que lhe passa pela cabeça, enquanto o terapeuta escuta e faz questionamentos pontuais.

É um caminho tortuoso e lento – e, por isso, é difícil medir seus avanços. “A terapia tradicional vai muito além da redução de sintomas. O que os pacientes estão buscando é mais qualidade de vida, mais confiança e segurança nos relacionamentos, mais perspectiva sobre si mesmos”, diz Nancy McWilliams, professora da Universidade Rutgers e autora da obra Psychoanalytic Psychotherapy.

Nesse cenário, ainda nos anos 1960, psicólogos começaram a procurar soluções mais práticas e mensuráveis para os problemas da psique humana. A resposta foi a Terapia Cognitivo-Comportamental, ou TCC. Criada por Albert Ellis e Aaron Beck, dois psicanalistas desiludidos com o método freudiano, a TCC prometia uma abordagem mais pé no chão, que não exigia chafurdar no lodo de nossos conflitos inconscientes.

Bastava ajustar pensamentos prejudiciais – causados por crenças pessimistas a respeito de nós mesmos, do mundo e do futuro – e comportamentos pouco funcionais que surgem desses pensamentos. Nada de focar no passado, o foco é o presente. “Não é preciso saber como uma pessoa quebrou o braço para poder tratá-lo”, diz o terapeuta cognitivo Stefan G. Hofmann, autor do livro An Introduction to Modern CBT (“Introdução à TCC”, sem edição no Brasil). Nas sessões, o paciente pode preencher fluxogramas sobre seu estado mental e recebe dicas de exercícios para alterar os pensamentos e comportamentos negativos em momentos de crise.

Em 1961, Aaron Beck desenvolveu um questionário de 21 itens para medir o grau de depressão de seus pacientes. E conseguiu provar que alguns meses da técnica eram suficientes para aliviar os sintomas em cerca de metade deles.

Muitos estudos se seguiram a esses primeiros, sempre com resultados favoráveis à técnica. Tanto que, com o tempo, o termo “terapia baseada em evidência” passou a ser sinônimo do método, e a TCC, barata e com duração mais curta – o total varia de acordo com o paciente, mas a estimativa é entre 8 e 16 semanas –, foi adotada com entusiasmo como principal política de saúde mental em diversos países.

A volta de Sigmund

Assim como ocorreu com a psicanálise, porém, a TCC começou a ter sua hegemonia questionada. Em 2015, pesquisadores noruegueses publicaram uma meta-análise mostrando que a eficácia da terapia cognitiva para tratar a depressão caiu pela metade desde os primeiros estudos, em 1977.

Meses depois, na Suécia, auditores do governo publicaram um relatório devastador sobre um experimento de saúde mental do país, que pagou ao longo de oito anos R$ 2,6 bilhões em TCC para os cidadãos suecos. O programa do governo, concluíram os auditores, falhou completamente em seus objetivos.

E um artigo de 2004 mostrou como os pesquisadores da TCC, para tornar os resultados mais fáceis de interpretar, excluíam dos estudos justamente o tipo de paciente mais comum nos consultórios, aquele com mais de um problema psicológico.

Ao mesmo tempo em que a TCC era posta em dúvida, uma novidade inesperada começou a surgir nas publicações científicas: o resgate da abordagem freudiana de terapia. Ao contrário do que se dizia, a psicanálise e as terapias psicodinâmicas funcionam, sim, e muito bem.

Um estudo de 2016, enorme e feito no sistema de saúde inglês, mostrou que, para os pacientes com depressão mais grave, 18 meses de análise foram muito mais efetivos que o tratamento padrão, que incluía TCC. O mesmo resultado vale para outros transtornos, inclusive os mais severos.

É o que demonstra uma meta-análise publicada em 2008 no prestigioso JAMA, Journal of the American Medical Association, que concluiu que terapias freudianas com mais de um ano de duração são mais eficazes que terapias de curto prazo para pacientes com patologias complexas, como transtornos de personalidade.

O mais impressionante dos dados é que, diferente da terapia cognitiva e dos remédios, os benefícios da análise não só permaneceram, como ficaram ainda maiores após o final do tratamento, causando mudanças duradouras nos pacientes.

O cérebro no divã

Além das pesquisas populacionais comprovando sua eficácia, a psicanálise passou a ser endossada pela neurociência. Até o final da década de 1990, psicologia e neurociência falavam línguas completamente diferentes, apesar de estudarem o mesmo órgão. Com o avanço das técnicas de mapeamento cerebral, porém, a distância entre as duas áreas diminuiu.

A neurociência começou a se interessar por alguns dos conceitos fundamentais da psicanálise, como o inconsciente. Hoje, já se sabe que a maioria das nossas decisões e ações acontece, primeiro, nessa parte oculta da mente; só alguns milésimos de segundos depois é que tomamos consciência delas. Ou seja, o inconsciente já sabe o que você vai dizer antes mesmo de você pensar que quer dizer alguma coisa, e até escolhe as palavras para você.

É assim também com todas as habilidades que aprendemos na vida, como tocar violão ou pular corda. A prática faz com que essas habilidades fiquem gravadas em uma parte do inconsciente chamada “memória não declarativa”. Isso faz com que não precisemos pensar antes de executar cada movimento ou arremessar a bola na cesta: o inconsciente já sabe como chegar lá.

Hoje, já é senso comum que boa parte da atividade cerebral se passa no inconsciente – a estimativa dos neurocientistas é de que apenas 5%, ou até menos, se passe no nível da consciência.

Outro campo da neurociência que parece confirmar ideias da psicanálise é o dos sonhos. Freud teorizou que os sonhos apontam, de forma codificada, para nossos desejos inconscientes. Essa teoria foi praticamente enterrada nos anos 1970, quando pesquisas indicavam que os sonhos ocorriam durante o sono REM e eram controlados por um neurotransmissor produzido em uma região do tronco cerebral “menos importante” para os processos mais complexos da mente.

Por conta disso, passou-se a acreditar que os sonhos eram desencadeados por substâncias químicas que nada tinham a ver com a emoção e a motivação, ou seja, eram apenas estímulos aleatórios sem significado.

Essa teoria perdurou até o início dos anos 2000, quando o neurologista e psicanalista sul-africano Mark Solms viu que, ao contrário do que se pensava, pacientes com lesões na área do tronco cerebral continuavam sonhando, ao passo que outros, com lesões em outra região do cérebro – a área tegmentar ventral, que fica no centro da sua cabeça –, paravam de sonhar completamente, apesar de entrarem em REM.

As regiões afetadas nos pacientes que pararam de sonhar compõem o sistema mesolímbico-mesocortical, o chamado sistema de recompensa do cérebro. E o mais decisivo: além de parar de sonhar, as pessoas com lesões nesse sistema perdiam a motivação e o interesse pela vida. Com isso, Solms propôs que os sonhos estão ligados às nossas expectativas de punição e recompensa, algo não muito distante da teoria freudiana sobre o tema.

“É difícil dizer, hoje, que os sonhos são ‘desprovidos de mente’”, afirma o neurobiólogo Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal. O interesse de Ribeiro pela psicanálise veio no início de seu doutorado nos Estados Unidos, quando ainda não estava adaptado ao país e teve uma depressão. Durante os dois meses que durou o episódio, ele sentia muito sono, chegando a dormir 16 horas por dia. Quando a crise passou, ele se interessou pelo sono e pelos sonhos, chegando a Freud.

O tema acabaria se tornando a linha de pesquisa principal do neurocientista, que desenvolveu estudos para ver o que acontece durante o sono quando os animais passam por períodos de aprendizado. Ele colocou eletrodos no cérebro dos bichinhos e descobriu que, se um rato não passou por nada de novo no dia dele, seu cérebro fica num estado de baixa plasticidade. Mas, se coisas diferentes acontecem durante a vigília, a atividade durante o sono REM muda. “É como se o cérebro estivesse aprendendo de novo”, afirma o cientista.

Para Ribeiro, essa é uma demonstração de que os sonhos contêm restos diurnos, o que Freud cravou em 1900. “O sonho não é aleatório. Ele revela as memórias que foram geradas, e que são a base do inconsciente”, afirma. Alguns sonhos, por sua vez, podem ser até “premonitórios”: uma pesquisa, publicada na revista Nature em 2015, mostrou que análises quantitativas da descrição de sonhos de adolescentes podem prever quadros psicóticos com até 30 meses de antecedência.

Reprimidos de verdade

O neurologista indiano Vilayanur Ramachandran, diretor do Centro para o Cérebro e Cognição da Universidade da Califórnia, em San Diego, é outro entusiasta da aproximação entre psicanálise e neurociência.

Em 1994, ele fez estudos com pessoas que sofriam de anosognosia, uma condição na qual pacientes não computam os graves danos físicos que haviam sofrido por causa de lesões cerebrais. Uma das pacientes de Ramachandran sofreu um derrame e perdeu os movimentos do braço, mas negava ter qualquer problema. Oito dias após o derrame, o cientista estimulou artificialmente o hemisfério direito da paciente, que, nessas condições, reconheceu a paralisia.

Ao término do estímulo, porém, a paciente voltou a acreditar que o membro estava normal, e perdeu qualquer lembrança de ter percebido a lesão, embora se lembrasse em detalhes do restante da conversa com o médico.

Ou seja, a informação da deficiência chegou ao cérebro da paciente, ao menos de forma inconsciente. Ela era, porém, incapaz de admitir isso em momentos de plena consciência.

Fato semelhante acontece com uma síndrome conhecida como psicose de Korsakoff, em que portadores de danos na região límbica frontal têm amnésia mas não admitem, inventando histórias para preencher as lacunas da memória.

É o caso de um paciente da neuropsicóloga Aikatereni Fotopolou, relatado por Mark Solms, que inventava narrativas mirabolantes para justificar a cicatriz em sua cabeça, ou a presença do pesquisador na sala. Ao longo dos dias, a história variava: Solms era um cliente; companheiro de bar; um colega do time em que jogara quando mais jovem; o mecânico de um carro esporte – que ele não possuía. Tudo, menos um médico tratando de um problema que, afinal, ele não admitia ter.

Ao analisar quantitativamente as alegações do paciente, Fotopolou percebeu que não eram aleatórias: a maioria representava aspirações, coisas positivas, desejos. Assim como os pacientes de Ramachandran, o homem reconstruía a realidade como gostaria que fosse. Era uma forma de lidar com a perda, equivalente à repressão teorizada por Freud – a ideia de que algumas memórias seriam dolorosas demais para mantermos e, por isso, acabam varridas para o fundo do inconsciente.

Na verdade, é difícil bater o martelo e afirmar que “Freud acertou aquilo” ou “Freud errou isso”. Como tudo que envolve a mente humana, não há uma única resposta para nossas inquietações – o que dirá uma única pessoa que seja capaz de explicá-las.

O que publicamos aqui na SUPER lá em 2008 não estava errado: a teoria de Freud é realmente cheia de generalizações e escorregões.

Talvez o maior acerto do austríaco tenha sido outro: “Mais que qualquer teoria específica, o legado de Freud é uma apreciação da riqueza e da complexidade da mente, do fato de que as coisas têm significados para além do que se pode ver na superfície”, diz Jonathan Shedler, psicólogo e professor de psiquiatria da Universidade do Colorado.

O que a ciência está fazendo agora é tentar fornecer as bases fisiológicas para toda essa complexidade. Algo que o próprio Freud, que era médico, neurologista e psiquiatra, aprovaria.

Fonte:

https://super.abril.com.br/ciencia/o-retorno-de-freud/

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5 Dicionários de Psicanálise para baixar

 

                           Com Freud, a psicanálise produziu uma modificação sem precedentes na concepção do homem, o qual percebe, desde logo, que um determinismo inconsciente organiza sua existência. Tal determinismo revela-se claramente com Lacan como sendo o da própria linguagem. Aquilo que comanda o sujeito humano é o universo do discurso, onde precisa encontrar seu lugar. A linguagem psicanalítica também não é apenas um utensílio, mas conserva seu valor metafórico, algumas vezes poético, mesmo que tente assumir uma dimensão científica. Neste dicionário, escrito por praticantes ciosos de sua legibilidade, o leitor irá encontrar, além dos verbetes dedicados a diversos autores, uma apresentação precisa e referenciada dos conceitos psicanalíticos essenciais. Os encaminhamentos de um termo a outro oferecem a possibilidade de uma leitura descobridora. Esta edição vem a público enriquecida com glossários alemão-português, francês-português e inglês-português.

     Este trabalho deriva do projeto de dicionário promovido por Lacan em sua Escola, após o Vocabulário da psicanálise de Laplanche e Pontalis. Pensado a partir de uma base clínica sólida, os artigos oferecem um panorama completo dos conceitos psicanalíticos polidos, ademais, na recepção do pensamento de Freud inspirado pelas idéias de Lacan, e na recepção das ideias do próprio Lacan posteriormente. Também leva em conta alguns dos discípulos diretos de Freud e autores da escola de inglês. A complexidade de um ensino renovador e de alto nível teórico foi resolvida em exposições claras e explicativas. Cada artigo apresenta uma sucessão de aspectos de um conceito que assume o caráter de uma descrição relativa autônoma, mas todos os artigos são referenciados e cruzados entre si, o que permite leituras de descoberta pessoal. Os termos elaborados alcançam valor de significantes, isto é que ressoam em diversos registros; eles adquirem valores diferentes de acordo com sua história, seu contexto, os campos semânticos de onde eles se originam. E quando esses significantes são inseridos em uma análise estrutural rigorosa, será dito que eles estão inclinados a valer “matemas”.

 

Este dicionário reúne, em forma enciclopédica, os conceitos essenciais da psicanálise, desde as teses fundadoras estabelecidas por Sigmund Freud até formulações mais recentes, propostas a partir de Jacques Lacan. O dicionário também compreende; cronologias da vida e da obra de Freud e Lacan; listas de leituras sugeridas sobre os temas abordados; minucioso índice remissivo, temático e onomástico, que inclui pequenas biografias. Colaboraram para este dicionário mais de 50 especialistas, entre psicanalistas e professores universitários, dentre os quais, Joel Dor, Julia Kristeva, Philippe Julien, Pierre Fédida, Charles Melman, Giulia Sissa e Catherine Millot, sob a coordenação de Pierre Kaufmann, professor emérito da Universidade de Paris-X.

 

   O Dicionário Comentado do Alemão de Freud apresenta alguns dos mais importantes termos psicanalíticos alemães, todos de difícil tradução. Entre os quarenta verbetes do dicionário, encontram-se clássicos da psicanálise, tais como pulsão (Trieb), recalque (Verdrängung) e representação (Vorstellung), discutidos detalhadamente, em seções que podem ser consultadas conforme o grau de profundidade desejado. São apresentados os significados extraídos de dicionários antigos e atuais, e discutidas as conotações do termo no universo lingüístico germânico. Também é explicada sua etimologia e as partes que compõem a palavra. Através de uma tabela contrastiva, os sentidos e conotações do termo original podem ser comparados com os da palavra habitualmente adotada para traduzi-lo em português. São apresentados exemplos de frases e parágrafos, retirados de diversos períodos da obra de Freud, e é comentada a inserção do verbete no texto freudiano alemão. Um glossário multilíngüe permite consultar o dicionário a partir do português, alemão, espanhol, francês ou inglês.

 

 

 Na medida em que a psicanálise renovou a compreensão da maioria dos fenômenos psicológicos e psicopatológicos, e mesmo a do homem em geral, seria possível, num manual alfabético que se propusesse abarcar o conjunto das contribuições psicanalíticas, tratar não apenas da libido e da transferência, mas do amor e do sonho, da delinqüência ou do surrealismo. A nossa intenção foi completamente diferente: preferimos deliberadamente analisar o aparelho nacional da psicanálise, isto é, o conjunto dos conceitos por ela progressivamente elaborados para traduzir as suas descobertas.

 

FONTE: https://lacanempdf.blogspot.com/2019/02/dicionarios-de-psicanalise.html