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Casos Clínicos

Atendimento em psicoterapia dinâmica breve

Resumo

Neste trabalho, é apresentado um caso de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) de início tardio, encaminhado para atendimento na área de psicoterapia dinâmica breve (PDB). O trabalho com o paciente se centrou nos aspectos relacionados ao evento estressor e às dificuldades acarretadas por ele, buscando minimizar os prejuízos do paciente e ajudá-lo a alcançar objetivos determinados. A análise deste caso veio a corroborar que pacientes com TEPT de início tardio também podem ser beneficiados com a PDB.
INTRODUÇÃO

Os avanços dos estudos psicanalíticos entre os anos de 1946 e 1965, aliados às mudanças sociais e econômicas, exigiram uma maior flexibilidade nos modelos de assistência à saúde mental estabelecidos até então. A crescente procura de ajuda terapêutica por parte da massa consultante, dotada de recursos econômicos limitados, propiciou o surgimento da chamada psicoterapia breve de orientação psicanalítica ou psicoterapia dinâmica breve (PDB)1.

Apesar de ter como base os pressupostos teóricos conceituais da psicanálise, a PDB possui características que lhe configuram uma estrutura própria2. É uma técnica psicoterápica ativa, com tempo objetivos limitados, que visa à superação de sintomas críticos e de problemas atuais da realidade cotidiana do paciente, dentro de uma abordagem flexível e individualizada3.

Na PDB, trabalha-se visando à estimulação e ao reforço das capacidades autônomas do paciente, sem, no entanto, perder de vista as limitações dos objetivos terapêuticos em função das necessidades mais imediatas4. Essa redução de metas levou muitos autores a se interrogarem acerca de quem pode ou não ser beneficiado com essa abordagem5.

Alguns estudiosos afirmam que os indivíduos que melhor respondem à PDB são os que dispõem de uma boa força egoica e de boa capacidade para a abstração e a interação, enquanto outros dizem que são o caso clínico e o psicoterapeuta os que definirão a indicação (ou não) para esse tipo de psicoterapia tendo em vista os princípios e possibilidades da própria abordagem6,7. Postulam, ainda, que, embora possa haver variação, a PDB oferece grandes possibilidades de beneficiar praticamente a totalidade de pacientes que procuram auxílio psicológico5.

Como a maioria das terapêuticas breves, a PDB adota, especialmente, o princípio da flexibilidade, buscando se organizar em função de uma avaliação geral da situação apresentada no ato da primeira sessão. Avalia-se não só o grau de debilidade do paciente, como também o potencial adaptativo de sua personalidade, objetivando realizar uma orientação que possibilite, entre outras coisas, o fortalecimento das áreas do ego que se encontram livres de conflitos. Assim, trata-se de uma abordagem especialmente adequada para pacientes com essa margem de possibilidade, como aqueles que apresentam fobias, estresses e traumas. No entanto, cabe destacar que, para o tratamento de alguns quadros, tais como os de psicoses severas, as contribuições da psicoterapia dinâmica breve continuam sendo consideravelmente limitadas5,7.

No presente trabalho , é apresentado o relato de um caso clínico atendido com PDB envolvendo um paciente com transtorno de estresse Pós-Traumático (TEPT) de início.

Para tanto, tecemos considerações breves sobre o TEPT, além de apontarmos possibilidades e desafios que emergiram durante o atendimento do caso. Ressalta-se que a abordagem, as intervenções psicoterápicas e psicossociais do TEPT, indicadas tanto para prevenção como para o tratamento, devem se basear em intervenções breves, compostas por discussões sobre o evento traumático e a “normalização” das reações psicológicas associadas, devendo envolver apoio, aconselhamento e foco em medidas adaptativas em curto prazo. Assim, é possível identificar a compatibilidade dessas condições com os objetivos e as propostas de ação da PDB2,8,13.

TEPT – BREVES CONSIDERAÇÕES

A ideia de que vivências traumáticas trazem consequências danosas para a mente humana não é recente: o próprio termo “neurose traumática” aparece já em 1889, na Alemanha, para fazer referência a alterações orgânicas que decorreriam de eventos traumáticos8. No entanto, o termo “transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) surgiu apenas em 1980, configurando uma nova possibilidade de diagnóstico, proposto pelo Manual de Diagnósticos e Estatísticas dos Distúrbios Mentais (DSM III). Essa validação significou o reconhecimento do padecimento de pessoas cujas histórias traumáticas não eram aceitas como determinantes de seu sofrimento9.

A quarta edição com texto revisado do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV TR), apresenta seis itens contendo vários critérios para o diagnóstico de TEPT. São eles: 1) exposição a um evento traumático com morte, grave ferimento ou real ameaça e resposta de medo intenso, impotência ou horror; 2) revivência do evento traumático que leve o paciente a agir como se o evento estivesse ocorrendo novamente, ou que se manifeste mediante recordações aflitivas, recorrentes e intrusivas do evento; sonhos aflitivos e recorrentes com o evento; sofrimento psicológico intenso ou reatividade fisiológica quando exposto a alguma lembrança do evento; 3) esquiva persistente de estímulos associados ao trauma; 4) sintomas persistentes de excitabilidade aumentada. Além disso, os sintomas, de acordo com o referido manual, envolvem um quadro de resposta tardia ou prolongada de intenso medo, impotência ou horror, após a exposição a um evento traumático extremo10.

À diferença do DSM-IV, a Classificação Internacional de Doenças (CID 10) apresenta diretrizes menos específicas em relação aos critérios para a realização do diagnóstico do TEPT, listando dez sintomas clínicos que devem ser observados nos pacientes, a saber: episódios de repetidas vivências do trauma como memórias intrusas, ou sonhos; sensação de entorpecimento emocional; afastamento de outras pessoas; falta de responsividade ao ambiente; anedonia e evitação de atividades que recordam o trauma; hiperexcitação com hipervigilância e insônia (CID). Assim, a sintomatologia do TEPT é dividida em três grupos principais: o relacionado à experiência traumática; à esquiva e ao distanciamento emocional; e, por fim, à hiperexcitabilidade psíquica (p. 4)11,12

Comparados com os do DSM-IV, os critérios de diagnósticos para o TEPT do DSM-V detalham a constituição de eventos traumáticos condutores de desvios da rotina de vida do paciente. Na nova versão, o foco passa para os sintomas comportamentais divididos em quatro grupos diagnósticos principais: 1) reexperimentar, que abrange aspectos como memórias do evento traumático e flashbacks constantes; 2) esquiva, que se refere a pensamentos negativos recorrentes relacionados ao trauma e que provocam comportamentos evitativos que limitam o indivíduo socialmente; 3) cognições negativas e humor, com a presença de sentimentos de culpa e a distorção das memórias do evento estressor; 4) excitação, marcada pela agressividade, imprudência e distúrbios do sono. Nessa nova versão do Manual, o diagnóstico passa a depender da continuidade dos sintomas, que devem persistir por mais de um mês, e é suprimida a distinção entre as fases aguda e crônica, dispostas na versão anterior13.

Diante do exposto, é possível afirmar que o TEPT é um transtorno psicológico que ocorre em resposta a uma situação ou evento estressante de natureza ameaçadora ou catastrófica. Por outro lado, o subtipo em questão, ou seja, o transtorno de estresse pós-traumático de início tardio, caracteriza-se, especialmente, pelo aparecimento dos sintomas pelo menos seis meses após o evento estressor (p. 4)14

Sabe-se que eventos traumáticos também podem desencadear outros tipos de transtorno; por isso, antes de diagnosticar um TEPT, é necessário levar em consideração questões referentes ao diagnóstico diferencial. O transtorno dissociativo, por exemplo, envolve um evento estressor, porém, nesse caso, o paciente reprime as lembranças relacionadas a ele e forma uma nova identidade. O transtorno de ajustamento também se assemelha em parte ao TEPT, mas supõe sintomas que se apresentam em um espaço de tempo relativamente mais curto. Observa-se que o diagnóstico do TEPT é uma tarefa complexa, o que faz com que a divulgação de casos que envolvam tal situação possa contribuir para a construção e divulgação do conhecimento na área.

RELATO DO CASO

Identificação e descrição do paciente

João (nome fictício), 26 anos, sexo masculino, solteiro, caucasiano branco, brasileiro, segundo grau completo, trabalhador autônomo, evangélico, estatura e peso médios, proveniente do Estado da Paraíba, Brasil.

Impressões iniciais

Na primeira sessão, João chegou pontualmente, mas demonstrando receio em relação ao ambiente. Aguardou ser chamado para entrar na sala e só sentou quando solicitado. Após as devidas apresentações, afirmou não saber como funcionava a terapia e que a havia procurado por orientação de um amigo. A terapeuta fez esclarecimentos acerca da PDB de modo geral, percebendo interesse e um bom nível de compreensão por parte do paciente. O desenrolar positivo do encontro possibilitou o estabelecimento do vínculo terapêutico já na primeira sessão.

Queixa principal

Ao ser questionado sobre o motivo da procura, João mencionou o fato de não conseguir sucesso nos exames de autoescola apesar de já ter tentado quatro vezes.

Sintomas apresentados

Insônias e pesadelos constantes que envolviam conteúdos de agressão e humilhação; reações de fuga e esquiva exageradas, especialmente em relação a atividades que envolvessem o uso de motocicletas ou a conversas relacionadas à sua família; falta de concentração, especialmente no trânsito; episódios de pânico (taquicardia, transpiração, tremores e medo de morrer); e a referida dificuldade em conduzir motocicletas.

Síntese da história pregressa e atual

Até os seis anos de idade, João morou com os pais e os irmãos, desfrutando de uma família bem estruturada. Seus pais sofreram um acidente de automóvel em decorrência do qual sua mãe faleceu; o pai, então, começou a ingerir bebida alcoólica de forma abusiva, chegando a entregar os filhos a parentes e desaparecer. Separado dos irmãos, João passou a morar com a avó paterna e um tio. Nessa época, começou a ser responsável por todas as atividades domésticas (lavar, passar, cozinhar e varrer), enquanto a a avó e o tio permaneciam deitados fumando, tomando café e vendo televisão.

Só aos dez anos de idade começou a estudar e, aos treze anos, começou a trabalhar como entregador de gás, fazendo as entregas em uma bicicleta. Nessa época, precisava realizar as atividades domésticas, estudar e trabalhar. Por conta do acúmulo de tarefas, a avó do paciente passou a acompanhar de perto a realização do serviço doméstico, alegando que estava sendo mal feito. Quando não gostava do resultado, repreendia o neto com agressões físicas e verbais. Ao completar 18 anos, João realizou o que ele disse ser o seu maior sonho na época: sair de casa e morar só. Ele se mudou para uma cidade vizinha e conseguiu um emprego de caixa de supermercado, morando sozinho ali por três meses, até conseguir um amigo para dividir as despesas de um apartamento. Apesar de tímido, relatou conseguir se relacionar satisfatoriamente com as pessoas, principalmente no ambiente de trabalho.

Aos 24 anos, nos tempos livres, começou a vender roupas de porta em porta para complementar a renda e, assim, poder comprar uma motocicleta. Realizou a compra aos 25 anos, mas, como não tinha muita prática, passou a receber instruções de direção de um amigo. Logo começou a conduzir o veículo sozinho, apesar de ainda não possuir a carteira nacional de habilitação (CNH). Com maior facilidade de locomoção para vender roupas, João abandonou o emprego fixo.

Depois de muito tempo sem ver a avó, em um dia de trabalho, João a encontrou ocasionalmente na rua. Ao reconhecê-lo, ela se dirigiu até ele, que estava em sua motocicleta parado em um sinal de trânsito e o agrediu com uma bolsa no momento em que João dava a partida no veículo, provocando uma queda que provocou uma forte pancada na cabeça. Em decorrência disso, o paciente passou dois dias no Centro de Terapia Intensiva (CTI) e aproximadamente dois meses com a perna direita imobilizada. Na ocasião, por não possuir a CNH, sua motocicleta foi apreendida. Cinco meses depois, já recuperado, João voltou a trabalhar com vendas, utilizando a motocicleta de um amigo. Resolveu iniciar as aulas na autoescola para obter a CNH e realizar o seu trabalho de forma legal. Porém, nas quatro tentativas feitas até a primeira sessão de psicoterapia, sofreu com todos os sintomas anteriormente citados e, consequentemente, não obteve êxito. O paciente relatou ainda que passou a ter uma dificuldade repentina para conduzir o veículo em questão, mesmo para fazer as vendas como de costume, pois não conseguia se concentrar como antes no trânsito e, por isso, tinha receio de sofrer outro acidente. Os prejuízos físicos e materiais que resultaram do acidente foram apontados por ele na tentativa de justiçar as dificuldades que se apresentavam, mas também foi relatada a associação direta do veículo à imagem da avó.

Os principais sintomas apresentados pelo paciente foram: insônias e pesadelos constantes que envolviam conteúdos de agressão e humilhação; reações de fuga e esquiva exageradas, especialmente em relação a atividades que envolvessem o uso de motocicletas ou a conversas relacionadas à sua família; falta de concentração, especialmente no trânsito; episódios de pânico (taquicardia, transpiração, tremores e medo de morrer); e a dificuldade em conduzir motocicletas

Súmula

Paciente lúcido, cooperativo, globalmente orientado. Memória, inteligência, sensopercepção e linguagem sem alterações. Consciência do eu preservada, humor ansioso, vontade e pragmatismo preservados, consciência da dificuldade atual. Imagem narcísica levemente alterada.

Hipóteses de trabalho

– Hipótese diagnóstica: transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) de início tardio. Para o DSM-IV (1994/1995), um requisito para esse diagnóstico é identificar o evento traumático (agente estressor) que tenha representado ameaça à vida do portador do distúrbio ou de uma pessoa querida e perante o qual se sentiu impotente para esboçar qualquer reação. Esclarecemos que, na época em que o paciente foi atendido, os critérios diagnósticos vigentes eram os da referida versão do manual de diagnósticos (DSM-IV); atualmente, o DSM-V propõe algumas alterações em relação a essa problemática.

– Hipóteses psicodinâmicas: a) dificuldade em elaborar o evento traumático vivido; b) dificuldade em relacionar o evento estressor com a problemática apresentada; c) sentimento de culpa em relação ao evento traumático; d) frustração por não ter sido aprovado nos exames da autoescola.

– Foco: trabalhar aspectos relacionados ao evento estressor e à dificuldade de aprovação na autoescola.

– Atendimento: Inicialmente foram propostas doze sessões, mas, posteriormente, houve a necessidade de quatro encontros adicionais, totalizando dezesseis sessões.

Evolução do caso

O paciente foi acompanhado sistematicamente, nos dois meses em que frequentou as sessões de PDB, em encontros que ocorriam em média duas vezes por semana. O ponto de partida para o estabelecimento da relação terapêutica em PDB foi a entrevista preliminar, realizada mediante as duas primeiras sessões com o paciente e conduzida pelo terapeuta com o objetivo de: estabelecer uma relação terapêutica, viabilizar a elaboração de uma história clínica (anamnese), avaliar o diagnóstico-prognóstico, promover uma devolução diagnóstica-prognóstica, estipular metas terapêuticas, delimitar a duração do tratamento, explicitar o método de trabalho e fixar as normas de trabalho

A sequência de atendimento desenvolveu-se em torno do foco anteriormente descrito, com base nos princípios da referida abordagem. A terapeuta buscou estabelecer uma relação de indagação centralizada, esclarecendo as conexões significativas entre a biografia, a transferência de vínculos básicos conflituosos para as relações atuais e os sintomas apresentados. Assim, o objetivo principal do atendimento em PDB foi proporcionar uma imagem global das inter-relações em foco a fim de clarificar as situações de crise. Para isso, foi indispensável criar um contexto sem ambiguidades, livre de discriminações, frustrações e privações sensoriais. Tais aspectos foram instaurados paulatinamente em sessões semanais com duração de aproximadamente 45 minutos que se estenderam por quatro meses de atendimento.

Após duas semanas de acompanhamento, o paciente já estava conseguindo confrontar seus sentimentos ambivalentes, principalmente em relação à avó e ao evento estressor vivenciado. Nessa época, retomou as aulas na autoescola, dedicando-se integralmente a essa atividade. À medida que o novo teste de direção se aproximava, as questões direcionadas à remissão dos sintomas eram enfatizadas. A terapeuta optou por trabalhar a tríade apoio-esclarecimento-docência, visando a fortalecer o paciente, elucidar questões pouco elaboradas por meio da auto-observação por parte do paciente e proporcionar informações de ordem prática, úteis para a resolução da problemática. Algumas dificuldades emergiram em forma de insegurança e intenção de desistir do exame, mas foram contornadas por posturas motivacionais e compreensivas da terapeuta. Na penúltima sessão, João havia sido aprovado na autoescola e verbalizado que considerava seu caso resolvido. A terapeuta marcou uma última sessão, na qual realizou um balanço geral do caso, discutiu os avanços alcançados e sinalizou estratégias de manutenção da estabilização do quadro.

DISCUSSÃO

Diante da situação apresentada pelo paciente, inicialmente a terapeuta suspeitou tratar-se de um caso de TEPT, porém, considerando maiores detalhes da situação e dos intervalos de tempo envolvidos, constatou o início tardio da instalação dos sintomas que caracterizam o transtorno.

O subtipo TEPT de início tardio surge como resposta tardia (pelo menos seis meses de intervalo) após o evento estressor potencialmente traumático; mas apresenta os mesmos enquadramentos sintomáticos do TEPT, podendo ser considerado uma extensão desse transtorno. No caso relatado, o paciente havia sofrido um acidente seis meses antes de começar a apresentar os sintomas referidos anteriormente, quais sejam: insônias e pesadelos constantes, reações de fuga e esquiva exageradas, falta de concentração, especialmente no trânsito, e episódios de pânico (taquicardia, transpiração, tremores e medo de morrer). Antes disso, havia conseguido retomar sua rotina normalmente, por um curto período de tempo8,13.

O quadro descrito no DSM IV-TR caracteriza o TEPT (de início tardio ou não), por uma revivência persistente do evento traumático (inclusive por pesadelos) e, consequentemente, uma esquiva também recorrente de estímulos associados ao trauma, além de um alheamento geral e de excitabilidade aumentada. Esses sintomas foram apresentados pelo paciente diante da necessidade de fazer uso da motocicleta para realizar as aulas e os exames da autoescola.

De acordo com o Manual, para ser diagnosticado o transtorno, o quadro precisa ser importante a ponto de causar um sofrimento clinicamente significativo, ou um prejuízo no funcionamento social e/ou ocupacional. Tal prejuízo pode ser identificado na dificuldade de trabalhar que o paciente estava encontrando: por não conseguir conduzir o veículo com segurança, ele estava impossibilitado de realizar o seu trabalho e ter êxito no exame de direção10,11.

As limitações decorrentes do quadro clínico de João também se refletiam em sentimentos de culpa, rejeição e humilhação, tanto em relação ao ocorrido com a avó, causa do acidente, quanto em relação ao fracasso nas avaliações. Pacientes com TEPT de início tardio, em alguns casos, podem demonstrar culpa, rejeição e humilhação associadas a todos os demais sintomas. Nesses casos, a necessidade de intervenção é ainda mais proeminente, pois a referida associação sinaliza maior risco de comorbidades14.

Diante dessa constatação, a terapeuta pôde traçar um plano de ação visando, em um curto período de tempo, promover o controle dos sintomas e a elaboração das principais questões relacionadas ao foco do processo terapêutico em questão. Como meta principal do paciente, foi colocada a aprovação no exame da autoescola, sucesso que veio como resultado de uma ação ancorada no tripé apoio-esclarecimento-docência. Visando a esse êxito, a terapeuta precisou oferecer um vínculo protetor, motivador, diretivo e orientador. Dessa forma, o paciente teve a oportunidade de desenvolver a capacidade de colaborar ativamente com o seu tratamento, facilitando o desenrolar do processo terapêutico como um todo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como foi possível observar neste relato, o atendimento ao paciente com TEPT de início tardio é bastante específico, principalmente por se tratar de um quadro que acarreta limitações e prejuízos imediatos e funcionais à vida do paciente. O fato de a PDB proporcionar o desenvolvimento de uma imagem global das inter-relações centralizadas em focos de descompensação, clarificando a situação de crise, coloca essa abordagem como uma opção a ser considerada no tratamento desse transtorno. Outro motivo para isso são as suas propostas de tratamentos breves e planejados. É possível concluir que a condução do caso levantou questões relevantes acerca do tema em foco, porém não pretendeu esgotá-lo, visto que muito ainda se tem a percorrer visando a contribuir com a construção de conhecimento na área.

REFERÊNCIAS

1. Cunha PJ Azevedo MASB. Um caso de transtorno de personalidade borderline atendido em psicoterapia dinâmica breve. Brasília: Psicologia Teoria e Pesquisa; 2001;17(1):05-7.

2. Azevedo MASB. Psicoterapia breve: considerações sobre suas características e potencialidade de aplicação na psicologia clínica brasileira. Rio de Janeiro: Arquivos Brasileiros de Psicologia; 1983;35(1):92-13.

3. Cordioli AV. Psicoterapias: abordagens atuais. Porto Alegre: Artes Médicas; 2007.

4. Braier EA. Psicoterapia breve de orientação psicanalítica. São Paulo: Martins Fontes; 2008.

5. Fiorini HJ. Teoria e técnicas de psicoterapias. Rio de Janeiro: Martins Fontes; 2008.

6. Wolberg LR. Short-term psychotherapy. Nova York: Grune & Stratton; 1969.

7. Marmor J. Short-Term Dynamic Psychotherapy. Nova York: American Journal of Psychiatry; 1979;136(1):149-7.

8. Soares BGO, Lima MS. Estresse pós-traumático: uma abordagem baseada em evidências. São Paulo: Revista Brasileira de Psiquiatria; 2003;25(1):62-6.

9. American Psychiatric Association. Manual de diagnóstico e estatística dos distúrbios mentais: DSM-III. Lisboa: Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos; 1986.

10. Wilson JP. The historical evolution of PTSD Diagnostic criteria: from Freud to DSM-IV-TR. In: Everly Jr GS, Lating JM. Psychotraumatology: key papers and core concepts in post- traumatic stress. New York: Plenum; 1995. p. 9-26.

11. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-IV. 4a ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995.

12. Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993.

13. Posttraumatic Stress Disorder. Disponível em: http//www.dsm5.org. Acessado em dez. 2013.

14. Filho JWC, Sougey EB. Transtorno de estresse pós-traumático: formulação diagnóstica e questões sobre comorbidade. São Paulo: Revista Brasileira de Psiquiatria; 2001;23(4):221-8.

15. Sadock BJ, Sadock VA. Transtorno de estresse pós-traumático. In: Compêndio de psiquiatria. Porto Alegre: Artmed; 2007 p. 665-9.

Graduada em Psicologia – UFPB (mestranda em Psicologia Social – UFPB) – João Pessoa – PB – Brasil

Instituição: Universidade Federal da Paraíba

Correspondência
Simone Salviano Alves
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58051500, João Pessoa, Paraíba/Brasil
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Caso Clínico De Psicoterapia Dinâmica Brevíssima

Resumo: O objetivo do presente estudo foi descrever um caso clínico de psicoterapia dinâmica brevíssima. Foram descritas as principais técnicas de estabelecimento do vínculo e da confiança com a paciente. Os avanços e as limitações do processo terapêutico brevíssimo também foram apresentados por meio de exemplos da evolução do quadro clínico da paciente. O vínculo estabelecido entre a terapeuta e a Paciente foi crucial para o bom andamento da psicoterapia brevíssima.

 

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Outubro de 2015 – Vol.20 – Nº 10

Artigo do mês

DESCRIÇÃO DE CASO CLÍNICO DE PSICOTERAPIA DINÂMICA BREVÍSSIMA

Alessandra Bianchin Silveira (1)
Claudio Herbert Nina-e-Silva (2)

(1) Acadêmica de Psicologia, Universidade de Rio Verde
(2) Professor Adjunto de Psicologia da Personalidade, Laboratório de Psicologia Anomalística e Neurociências, Universidade de Rio Verde

Resumo: O objetivo do presente estudo foi descrever um caso clínico de psicoterapia dinâmica brevíssima. Foram descritas as principais técnicas de estabelecimento do vínculo e da confiança com a paciente. Os avanços e as limitações do processo terapêutico brevíssimo também foram apresentados por meio de exemplos da evolução do quadro clínico da paciente. O vínculo estabelecido entre a terapeuta e a Paciente foi crucial para o bom andamento da psicoterapia brevíssima.

Palavras-chave: Psicoterapia. Ansiedade. Depressão. Consulta Psicológica.

 

Abstract: The aim of this study was to describe a case of very brief dynamic psychotherapy. The main techniques of trust and bond establishment with the patient have been reported. Advances and limitations of the very brief therapeutic process were also presented through examples of the evolution of the clinical condition of the patient. The bond made between the therapist and the patient was crucial to the smooth running of the very brief psychotherapy.

Keywords: Psychotherapy. Anxiety. Depression. Psychological Interview.

 

1. INTRODUÇÃO

A psicoterapia dinâmica brevíssima é uma intervenção terapêutica de mínimo 10 e de no máximo 20 sessões que busca levar o paciente a resolver problemas pontuais, aprender a lidar com as emoções e ressignificar recordações dolorosas ou traumáticas (AVELINE, 1996). Os resultados da psicoterapia dinâmica brevíssima são a redução de sinais e sintomas somáticos (conversivos) e a diminuição da frequência de ocorrência de comportamentos defensivos (BARKHAM et al., 1999; ABASS, 2003; COOPER; GABBARD; PERSON, 2007).

Mas qual seria o requisito necessário para que uma psicoterapia seja bem-sucedida? Feldman (1999, p.75) afirma que seria “criar um espaço onde o outro se sinta confortável, longe de julgamentos mundanos e protegido das aflições que o agridem no íntimo, ou seja, o acolher o outro, é o primeiro passo para que a relação de ajuda comece”.

Fiedler (1953) realizou um estudo para avaliar quais seriam as características decisivas de um terapeuta “bem-sucedido” a partir de uma amostra de 24 psicoterapeutas nova-iorquinos filiados a diferentes abordagens psicológicas. Foram considerados terapeutas “bem-sucedidos” aqueles cujos clientes receberam alta e não tiveram recaídas no quadro clínico que os havia levado à psicoterapia em até dois anos. Verificou-se que os terapeutas considerados “bem-sucedidos”, independente da abordagem e da técnica, possuíam como principais atributos a empatia e, sobretudo, a capacidade de estabelecer vínculo com seus clientes (FIEDLER, 1953). Esses resultados foram confirmados por estudos posteriores (PICHON-RIVIÈRE, 1980; FELDMAN, 1999; ZIMMERMAN, 1999; COOPER; GABBARD; PERSON, 2007).

A criação de um espaço permissivo para terapia é fundamental para que se construa a boa relação entre paciente-terapeuta. Para Rogers (1973;1992), uma característica importante nesta relação é a necessidade do cliente não se sentir julgado. Travelbee (1982), quando descreve a relação de pessoa a pessoa, enfatiza que o terapeuta deve aceitar o cliente como ele é, não devendo exercer o pré-julgamento e, portanto, não estabelecendo imediatamente o que deve ser objeto de análise.

O ambiente terapêutico permissivo é indispensável para a consecução dos objetivos essenciais da psicoterapia dinâmica brevíssima: fazer o paciente pensar e fazer, refletir e agir, ponderar e mudar (AVELINE, 1996; ABASS, 2003; COOPER; GABBARD; PERSON, 2007).

Desse modo, o objetivo do presente artigo foi descrever um caso clínico de psicoterapia brevíssima.

 

2. MATERIAIS E MÉTODOS

O presente trabalho foi realizado na Clínica Escola de Psicologia da Universidade de Rio Verde, como parte integrante do Estágio em Psicologia Clínica realizado pela primeira autora, sob a supervisão do segundo autor, em 2009. A paciente descrita neste estudo de caso foi selecionada a partir da triagem psicológica preliminar. O número de sessões foi igual a 10, conduzidas ao longo de três meses (uma sessão por semana).

A idade, a profissão, bem como alguns dados biográficos e certas características físicas que pudessem permitir o reconhecimento da real identidade da paciente, foram omitidos e/ou alterados neste relato para a preservação do anonimato da paciente. Nas citações diretas das transcrições de diálogos nas sessões terapêuticas, o nome da paciente foi substituído pela expressão “Paciente” nos vocativos.

As fontes de informações clinicamente relevantes foram: 1) diário de sessões, no qual foram transcritas os encontros terapêuticos; e 2) protocolo de avaliação psicológica, que foi utilizado ao longo da terapia, com o intuito de obtenção de dados acerca dos sentimentos e estados emocionais da cliente, e como base para mensuração de sintomas e resultados após o estabelecimento de objetivos na psicoterapia.

Em conformidade com a Resolução 001/2009, do Conselho Federal de Psicologia, realizou-se o registro documental de todas as sessões de prestação de serviço psicológico à paciente. A paciente leu e assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido autorizando a utilização dos dados de suas sessões terapêuticas para pesquisa e publicação, desde que preservado o anonimato de sua identidade.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Paciente procurou a Clínica Escola de Psicologia por indicação médica a fim de tratar uma “depressão profunda” que, segundo o relato dela própria, vinha se estendendo por 12 anos. Durante a entrevista inicial, a Paciente relatou que, além da “depressão”, ela sofria de uma “ansiedade excessiva”. Por causa tanto da ansiedade quanto da depressão, ela afirmou que “peregrinou por diversos médicos”, mas nunca sentiu “nenhuma melhora de verdade”.

A Paciente se casou na adolescência e ela descreveu o marido como sendo “rígido, controlador e desatento”, que muitas vezes se mostrou “agressivo” e “estranho”. A Paciente relatou que, após o casamento, o marido assumiu uma postura depreciativa e agressiva em relação a ela. Por se sentir sozinha a maior parte do tempo, a Paciente iniciou uma amizade com um homem mais velho que, por ser amigo do marido dela, freqüentava muito a sua casa. A Paciente contou que, inicialmente, considerava esse homem “apenas um bom amigo”, com o qual ela podia “conversar livremente”. Todavia essa relação de amizade da Paciente pelo amigo do marido evoluiu para um caso extraconjugal sem relações sexuais.

Essa situação ansiogênica acompanhada por fantasias de autopunição e de sentimento de culpa se estendeu por vários anos até que o marido da Paciente a pressionou a “confessar sobre a traição”. A Paciente se sentiu insuportavelmente ansiosa e, “para acabar com isso logo de uma vez”, ela decidiu confessar ao marido a relação extraconjugal.

Depois da “confissão da traição”, a Paciente foi tratada com agressividade pelo marido e foi obrigada a sair de casa. Nesse ínterim, a Paciente pediu que o “amante” se afastasse dela. Algum tempo depois, o “amante” se suicidou ingerindo veneno. Esse fato chocou a Paciente profundamente, pois ela se sentia profundamente culpada pelo suicídio do “amante”.

Posteriormente, a Paciente e o marido reataram o relacionamento, mas ela afirmou que, nos anos que se seguiram, a vida dela foi “infeliz demais, cheia de ansiedade e dor”. Ela também se queixou que não conseguia se libertar da lembrança do caso extraconjugal e das consequências trágicas dele. A Paciente relatou que ainda se sentia extremamente culpada e com “grandes sentimentos de mágoa” em relação a si mesma e ao marido.

No primeiro encontro com a Paciente na Clínica-Escola, ela parecia extremamente tímida, fazendo um esforço hercúleo para manter a bolsa dela junto ao corpo. Nessa primeira sessão, a terapeuta se concentrou na tarefa de estabelecer uma relação de empatia e de confiança com a Paciente, de modo que ela se sentisse confortável com a situação e falasse sobre si mesma e sobre sua história de vida livremente.

O discurso a seguir mostra a enorme dor sentida pela Paciente após o suicídio do “amante”:

 

Terapeuta: E depois, Paciente? O que aconteceu? Como tu te sentiste?

Paciente:  Ah…. eu perdi tudo na minha vida. O marido, o respeito, a família, minha filha, que o me. não deixava eu ir ver ela… Foi muito ruim, porque eu fiquei muito, muito triste e sozinha.

 

Nota-se claramente no discurso da Paciente a importância desse caso extraconjugal na vida dela e como isso a afetou negativamente, desencadeando um quadro de ansiedade crônica que evoluiu para um quadro depressivo. Um dado importante é que, nas duas primeiras sessões, a Paciente procurou justificar os sentimentos de angústia e a sua falta de vontade em fazer as coisas que ela sentia recorrendo insistentemente ao diagnóstico de depressão que havia recebido dos médicos. Ela se recusava a encarar o problema dela em termos mais realistas, preferindo se refugiar na fantasia de que a depressão era a “culpada dos problemas que sentia na vida”.

Na maior parte da primeira sessão, a terapeuta buscou criar as condições necessárias para que a Paciente se sentisse realmente livre para falar o que sentia sem receio de ser julgada ou avaliada. Para tanto, a Terapeuta se concentrou em prestar atenção ativamente ao que a Paciente dizia, encorajando-a a prosseguir falar por meio de comentários verbais (“sim”, “entendo”, “aham”, “continue”) e postura corporal (corpo inclinado para frente, olhar direcionado para a paciente, sorriso).

Além disso, a terapeuta empregou constantemente a paráfrase (repetição, com outras palavras, daquilo que a Paciente havia acabado de contar) para assegurar a compreensão do que a Paciente havia dito e, sobretudo, para demonstrar à Paciente o real interesse da Terapeuta pelo o que estava sendo dito pela Paciente. A técnica da paráfrase é muito útil para promover o estabelecimento do vínculo terapeuta-paciente logo nas primeiras sessões, pois o paciente tende a se sentir incondicionalmente aceito pelo terapeuta, possibilitando uma maior fluidez e espontaneidade no processo terapêutico (ROGERS, 1973;1992;COOPER; GABBARD; PERSON, 2007; YALOM, 2007).

Ao terminar a primeira sessão, a terapeuta explicou para a Paciente que o processo terapêutico depende da própria Paciente falar livremente sobre o que estava sentindo e pensando, e que nada que ela dissesse seria considerado “bobo, sem sentido, imoral ou absurdo” pela terapeuta.

Na segunda sessão, a terapeuta prosseguiu com o acolhimento incondicional da Paciente. Depois que a Paciente demonstrou estar segura e relaxada, a terapeuta aplicou um protocolo de avaliação psicológica, com questões acerca de sentimentos. Originalmente, o protocolo contém questões objetivas e diretas. Contudo, a terapeuta utilizou o protocolo como um roteiro de entrevista semi-estruturado,  permitindo-se fugir ao roteiro para explorar melhor algum aspecto interessante da fala da Paciente. A terapeuta sacrificou conscientemente a precisão da aplicação do protocolo em favor da adoção de uma postura de interesse pelo o que a Paciente estivesse dizendo, mesmo que isso não tivesse relação com o conteúdo de uma questão específica do protocolo. A terapeuta procedeu dessa forma porque ganhar a confiança da Paciente e estabelecer um vínculo com ela são objetivos mais importantes nas primeiras sessões do que propriamente obter dados detalhados sobre ela (ROGERS, 1973;1992;TRAVELBEE, 1982; COOPER; GABBARD; PERSON, 2007; YALOM, 2007).

A terceira sessão começou com a Paciente muito animada, subindo as escadas da Clínica-Escola com impressionante vivacidade. No entanto, já dentro do consultório, ao ser questionada como havia passado a semana desde a última sessão, a Paciente se retraiu e disse pesarosamente: “continua igual, tudo…”. Em virtude dessa aparente contradição entre a animação da chegada e a apatia da resposta, a terapeuta continuou questionando a Paciente:

 

Terapeuta: Mas, Paciente, conta melhor pra mim como foi esse “igual”.

Paciente: Ah, assim, foi igual… Na verdade, eu comecei foi mancar…

Terapeuta: Mancar? Quando que tu acaba mancando, Paciente? Me explica melhor.

Paciente: É assim, eu quase chego a cair mesmo, a perna falha, quando eu penso ‘naquilo’…

Terapeuta: O que é ‘aquilo’, Paciente?

Paciente: Ah ‘cê’ sabe, aquilo…

Terapeuta: Não, Paciente! Eu não sei o que é ‘aquilo’.

Paciente: O meu caso, a traição…

Terapeuta: Muito bem, Paciente! Agora continua, quando a tua perna falha?

Paciente: Toda vez que eu penso na traição… Parece que a minha perna fica sem força, quase caio no chão.

 

A Paciente relatou um sintoma clássico de conversão histérica (BREUER; FREUD, 1895/2010) ou de transtorno dissociativo do movimento (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1993), caracterizado como uma alteração ou limitação física involuntária e inconsciente que ocorre como resultado de conflitos ou necessidades psicológicas, na ausência de distúrbio físico (muscular e/ou neurológico).

No decorrer da terapia, várias outras vezes, a Paciente demonstrou que somatiza grande parte dos seus problemas psíquicos por meio de falhas no movimento das pernas (“mancar”), fortes dores de cabeça e dores no peito. Uma das características da problemática de Paciente é a incapacidade que ela possui em ser assertiva, principalmente com o marido.

A Paciente foi instruída a contar para a terapeuta tudo o que gostaria de falar para alguém, mas que não tivesse coragem de dizer para essa pessoa. A terapeuta fez essa recomendação à Paciente com base no estudo de Lazure (1994), segundo o qual o paciente tem necessidade de confiar em alguém, seja ele um amigo, ou um terapeuta. Além disso, o relato de confidências contribui para o estabelecimento da confiança no terapeuta pelo paciente (LAZURE, 1994).

A terceira sessão transcorreu tranquilamente, visto que a Paciente aderiu bem à proposta da terapeuta de trabalhar a ansiedade em falar sobre os próprios sentimentos. No final dessa sessão, provavelmente sob o efeito do trabalho prévio de controle da ansiedade, a Paciente admitiu que sente uma profunda falta de sogra (“uma segunda mãe”). Contudo, desde que houve o rompimento familiar após a “confissão da traição”, ela não falava mais com a sogra e isso a angustiava muito. O fato de a Paciente ter conseguido contar pode ser interpretado como uma demonstração de confiança da Paciente na terapeuta e de adesão à terapia.

Na quarta sessão, os objetivos das próximas sessões de terapia foram determinadas pela própria Paciente em conjunto com a terapeuta: 1) “conseguir falar o que sente para os outros”; 2) “deixar de ser tão ansiosa”; e 3) “voltar a conversar com a sogra”.

Ainda na quarta sessão, a terapeuta começou um treino assertivo intensivo com a Paciente (ASHER, 1979; COOPER; GABBARD; PERSON, 2007). Várias situações interpessoais ansiogênicas para a Paciente foram encenadas, no decorrer das quais a terapeuta serviu como modelo. Depois, na reencenação das situações ansiogênicas, a Paciente foi encorajada a falar o que gostaria de ter falado. Um exemplo de treino assertivo envolveu um episódio descrito pela Paciente. Ela teria dado à sobrinha R$300,00 para que ela depositasse no banco, mas verificou-se depois junto ao banco que apenas R$250,00 haviam sido realmente depositados. A encenação dessa situação foi a seguinte:

 

Terapeuta: Paciente, eu sou a tua sobrinha e te falo: Tia, eu tenho certeza que depositei o dinheiro todo!

Paciente: (hesitante) Mas ‘cê’ tem certeza? Às vezes caiu do seu bolso….

Terapeuta: Não tia, eu pus todo o dinheiro… a Senhora tá desconfiando de mim?

Paciente: Não é isso…

Terapeuta: Tia, a senhora tá desconfiando que eu roubei dinheiro da senhora?

Paciente: Não que você tenha roubado, Sobrinha, mas talvez tenha caído…

Terapeuta: Eu acho que a senhora tá desconfiando de mim.

Paciente: (após tomar fôlego) Tô sim, eu acho que você roubou meu dinheiro pra gastar com besteira.

Terapeuta: Muito bem, Paciente!. Como tu te sentiste?

Paciente: Aliviada, parece…

 

Na quinta sessão, a Paciente contou que tinha começado a usar o que tinha aprendido no treino assertivo e que ela tinha percebido “um grande avanço” que estava mudando bastante a vida dela. Depois disso, demonstrando muito pesar, a Paciente contou que se sente “muito mal” por ter pensamentos suicidas. Ela relatou que, quando vê algum fio de algum aparelho de som, fica perturbada “pensando na possibilidade de se enforcar”, mesmo sabendo que não deseja se matar de verdade. Segundo a Paciente, ”é como se fosse algo que eu não controlasse, eu não posso morrer, tenho minhas filhas pra criar, mas a vontade vem e eu fico mal, muito mal mesmo…”. Nesse momento, a terapeuta fez o seguinte comentário:

Terapeuta: Paciente, tu me disse que essa vontade de se matar aparece de repente, não é?

Paciente: Isso…

Terapeuta: Antigamente, quando tu ficava apenas deitada na cama, prostrada e sem ânimo, tu tinha esse tipo de pensamento, não é?

Paciente: É verdade, mas aí eu só tinha vontade de dormir…

Terapeuta: Exato! Paciente, vamos pensar num cachorro bravo, com raiva. Enquanto esse cachorro está na dele, em um canto, sem ninguém ir lá tentar amarrar ele, ele não faz nada. A partir do momento que alguma pessoa vai chegar perto dele com uma coleira, ele começa a atacar, rosnar, querer ser mais forte do que aquele que vai o prender. Tá acompanhando comigo, Paciente?

Paciente: Aham…

Terapeuta: Agora vamos pensar, Paciente, que o cachorro bravo é a tua depressão. Ela tava dominante e não precisava achar nenhuma forma mais nítida de se mostrar. Agora tu, a Paciente que consegue tomar as decisões da vida, tá agindo, tá fazendo terapia, tá tentando te erguer e, com isso, ficando mais forte… E o cachorro da tua “depressão” tá ficando acuado e desesperado… E tá buscando formas e formas de te assustar pra te dominar…

Paciente: … ‘Tô’ conseguindo entender o que você quer dizer… (rindo) ‘Vixe’! Então, agora que eu vou sentir vontade me matar mesmo!!! (risadas)”.

Terapeuta: Que bom que tu conseguiu visualizar, Paciente… Agora depende de ti determinar quem é que vai tomar conta: a Paciente que quer prender o cachorro nervoso… Ou o cachorro nervoso que é a tua depressão.

 

Com essa interpretação da terapeuta, a Paciente se mostrou muito tranqüilizada acerca dos seus pensamentos suicidas, passando a vê-los como um indicador do progresso na sua terapia, não como uma piora.

Na sexta sessão, a Paciente relatou que conseguiu fazer algo que julgava como impossível antes da terapia: conversar com a filha mais velha sobre a traição. Parabenizada pela terapeuta por essa conquista, a Paciente disse que se sentiu “corajosa e vitoriosa demais”, pois havia conseguido conversar “com uma das pessoas que mais amava” sobre algo que lhe trazia extrema dor. A terapeuta incentivou a Paciente a refletir sobre a importância dessa conversa dela com a filha e a Paciente concluiu que isso a ajudou a se sentir mais forte.

Na sétima sessão, a Paciente disse que havia piorado a ansiedade durante a semana, mas comentou que não havia acontecido nada de especial que justificasse essa piora nos sintomas. Ela comentou que, agora que tinha chegado à terapia, ela se sentia “animada”. No entanto, quando questionada pela terapeuta acerca do treino assertivo com a sogra, a Paciente relatou o seguinte:

 

Paciente: Ah, eu to tomando coragem ainda sabe… Mas eu fico sem graça de tipo pegar o telefone e ligar pra ela…

Terapeuta: Por que, Paciente? Tu tem medo que ela vá te tratar mal?

Paciente: (hesitante) Não… Sabe o que que é… Lembra do homem, da traição?

Terapeuta: Lembro…

Paciente: Então… A mulher dele, a esposa, vive na casa da minha sogra…

Terapeuta: (espantada) Como assim, Paciente?

Paciente: Ela vive lá, sabe? Faz comida pra ela, atende o telefone, fica com ela lá…

Terapeuta: E como é isso pra ti, Paciente? Porque isso é no mínimo estranho, ela é parente, ou coisa do gênero?

Paciente: Não… Depois que o homem morreu, ela não desgruda da minha sogra, eu acho ruim e bom, porque minha sogra é doente, e assim ela tem sempre alguém pra ajudar ela se precisa…

Terapeuta: Essa eu imagino que seja a parte boa… E a ruim, Paciente? Qual é?

Paciente: (emocionada e começa a chorar) Porque tudo que aquela desgraçada faz eu também podia fazer pela minha sogra e melhor, ela tomou o meu lugar!

 

Para a terapeuta, ficou claro que a Paciente se sentiu “invadida e ofendida pela outra mulher”, que “tomou o lugar” de nora-filha que a Paciente fantasiava que era dela. Ao investigar melhor essa fantasia e analisar o sentido dela junto com a Paciente, a terapeuta verificou que a Paciente via a sogra realmente como uma segunda mãe. Desse modo, a Paciente tinha o desejo de se reaproximar da sogra e tomar de volta o “lugar” que ela achava que era dela.

Nos minutos finais dessa sessão, a Paciente começou a falar sobre o quanto se sente envergonhada quando recebe visitas, pois sua casa está sempre desarrumada, pelo fato de ela querer “ficar só na cama, deitada”. A paciente afirmou que “chega ao ponto de fingir que está doente para poder se justificar ficar na cama”. Em relação a isso, a terapeuta fez a seguinte interpretação:

 

Terapeuta: Paciente, tu já reparou como a tua casa é só um reflexo de como tu está se sentindo por dentro?

Paciente: Como assim?

Terapeuta: Quando a tua casa está bagunçada, suja, é porque tu mesma está sem vontade, sem ânimo, entregue completamente ao desespero… Tu come porque senão morre. Faz comida porque precisa comer. Tu toma banho porque é preciso. Lava as roupas porque, se não, ficam sem roupas. Percebe como se tu “tá” mal, a tua casa vai mal também?

Paciente: Nossa… Sabe que quando você fala assim, faz sentido? Nunca tinha reparado, mas é desse jeito mesmo…

Terapeuta: Há algumas sessões tu dizia que o teu desânimo era maior que o ânimo. E hoje tu me disse que se sente animada! Tem ânimo dentro de ti, tu não concorda?

Paciente: Concordo… ‘Tô’ tentando bastante…

Terapeuta: Então, Paciente, hoje tu vai tentar fazer uma coisa a mais por ti e pela tua casa. Tu vai fazer almoço hoje, não vai?

Paciente: Vou.

Terapeuta: E o que tu costuma fazer de almoço?

Paciente: Ah… Arroz, feijão, uma carne e uma mistura, só.

Terapeuta: Então hoje, Paciente, tu vai fazer uma salada! Vai te cobrar esse ânimo pra fazer algo a mais. Posso te confiar essa tarefa?

Paciente: Pode… Minhas meninas adoram salada, e eu nunca faço…

Terapeuta: Pois então, Paciente, hoje tu vai fazer… Vai dar um passo pra puxar esse ânimo que tá aparecendo, combinado?

Paciente: (sorrindo) Combinado, então!

 

Devido ao fato de a Paciente ser uma mulher que passava a maior parte do seu tempo dentro do contexto do lar, a maior parte das interpretações feitas terapeuta envolviam metáforas ou temas relacionados ao lar. A terapeuta e seu supervisor decidiram usar o tema doméstico nas interpretações para que fosse mais fácil para a Paciente assimilar a analogia entre ela mesma e seus problemas.

Na nona sessão, a Paciente começou relatando como foi a sua semana e, com um sorriso meio tímido, contou que a sobrinha que morava com ela e lhe dava problemas havia se mudado. Em seguida, a Paciente contou com orgulho indisfarçado que tinha conversado com a sobrinha sobre os problemas financeiros da casa e sobre a falta de ajuda por parte da sobrinha. A paciente disse que conversou “numa boasem ofender a menina”, sendo que, no dia seguinte à conversa, a sobrinha se mudou. A Paciente comentou que se sentiu positivamente surpreendida e muito alegre por saber que o fato de ter falado algo que queria não lhe trouxe desgostos e sim uma situação que ela almejava, sem maiores problemas.

Além disso, a Paciente comentou que o marido havia telefonado para ela e começou a dizer grosserias. Daí, a Paciente simplesmente desligou o telefone, ao invés de ficar ouvindo as grosserias chorando e se sentindo ansiosa. Mesmo assim, a Paciente disse que a grosseria do marido ao telefone a irritou, mas que quando ele chegou à noite, ela “não deu moral” para ele, indo dormir sem discussões ou choro. Então, a Paciente relatou o que aconteceu depois:

 

Paciente: Eu saí cedo pra ir pro salão, porque não queria falar com ele[marido] pra não me irritar… Aí olha só… Eu adoro arroz com batata-doce, e ele odeia. Às vezes, eu peço pra fazer e ele fala que se fizer é pra botar a panela de arroz inteira fora, porque ele não gosta…

Terapeuta: Continue…

Paciente: Aí na segunda eu nem fui almoçar em casa, só voltei pra casa de noite, quando era umas 8 horas, e quando eu cheguei ele me chamou: ‘bem, vem cá ver o que eu fiz pra você’, e eu fui ver… ‘Cê’ acredita que ele tinha feito arroz com batata-doce pra mim?

Terapeuta: Sério?

Paciente: Sério! Nem acreditei!

Terapeuta: Tá vendo, Paciente?Ter sido assertiva com ele não só fez com que ele não te tratasse mal, mas ainda fez algo pra te agradar!

 

A paciente demonstrou claramente muita alegria e surpresa ao ver que ela poderia sim ser assertiva sem precisar se anular completamente na relação com o marido. Essa sessão terminou com a Paciente comentando como tirar a carteira de motorista estava sendo positivo para ela, já que nunca havia pensado em tirar carta de moto e carro antes da terapia.

Na décima e última sessão, durante a avaliação do progresso da terapia e a reaplicação do protocolo de avaliação psicológica, a Paciente relatou que “ainda sente ansiedade, mas que sabe que pode ser mais forte, quando quer”. Ela comentou que tomou coragem e convidou a sogra para almoçar em casa no domingo e que, apesar de não terem conversado muito, ela ficou feliz, pois a sogra havia trazido maionese. E a Paciente disse que sempre gostou muito da maionese da sogra e que, desde a “traição”, não havia mais comido maionese. A terapeuta afirmou que a melhora da Paciente tinha sido muito boa e que o progresso dela no campo das relações interpessoais tinha sido notável.

Os resultados do processo de psicoterapia dinâmica brevíssima da Paciente estão de acordo com a literatura (BARKHAM et al., 1999; ABASS, 2003; COOPER; GABBARD; PERSON, 2007), visto que houve a diminuição da frequência de sinais e sintomas somáticos e da ocorrência de comportamentos defensivos neuróticos.

Com relação aos objetivos propostos para a terapia da Paciente, a avaliação da terapia evidenciou que apenas o objetivo de “deixar de ser tão ansiosa” não foi atingido completamente. Afinal, apesar de estar se impondo nos relacionamentos interpessoais de maneira mais ativa, a Paciente ainda desenvolveu a capacidade de controlar plenamente a sua ansiedade.

A Paciente declarou que, apesar de se sentir relativamente bem, está com medo de uma nova recaída, que geralmente ocorria quando ela estava feliz. Nesse sentido, a terapeuta fez a seguinte interpretação:

 

Terapeuta: Paciente, já reparou na beira das rodovias, quando há queimadas?

Paciente: Sim, tudo preto…

Terapeuta: Então… O fogo mata muitas das propriedades do solo, deixa ele mais fraco e menos fértil, e por incrível que pareça, o mato e as plantas que crescem depois de uma queimada…

Paciente: Vem mais verde, né?

Terapeuta: Exato! Depois da adversidade, as plantas se fortalecem num solo mais pobre e crescem ainda mais bonitas. Consegue fazer essa analogia contigo mesma, Paciente?

Paciente: Olha… acho que sim

Terapeuta: Então, faz ela pra mim, me explica.

Paciente: Uai… Eu tô ficando mais forte agora, depois de tudo que eu passei, e isso é bom.

Terapeuta: Muito bem… Fico muito, muito feliz em ouvir isso da tua boca, Paciente.

 

Grande parte do sucesso terapêutico no caso clínico da Paciente se deveu à criação, por parte da terapeuta, de um espaço permissivo positivo nas primeiras sessões, no qual a empatia e a confiança entre a Paciente e a terapeuta foram estabelecidas. Dessa forma, os resultados positivos descritos no presente estudo de caso clínico corroboram achados anteriores segundo os quais o estabelecimento do vínculo com o paciente por meio do fomento da empatia e da confiança por parte do terapeuta é um fator importante para uma psicoterapia bem sucedida (FIEDLER, 1953; PICHON-RIVIÈRE, 1980; FELDMAN, 1999; ZIMMERMAN, 1999; COOPER; GABBARD; PERSON, 2007).

A terapeuta foi capaz de seguir os pressupostos básicos da psicoterapia dinâmica brevíssima no sentido de levar a Paciente a pensar e a agir, a refletir e a mudar com base em demandas concretas trazidas para a sessão terapêutica semana-a-semana (AVELINE, 1996).

Os sintomas conversivos apresentados inicialmente pela Paciente, tais como mancar, dores no peito, formigamentos e fadiga extrema foram desaparecendo progressivamente conforme as sessões foram avançando, não sendo mais relatados pela Paciente nas sessões finais da terapia.

Contudo, ao encerrar a última sessão, a terapeuta alertou a Paciente de que apesar de ela ter realmente feito muitos progressos em apenas três meses, ainda havia várias questões a serem trabalhadas e que seria adequado que ela aprofundasse o processo terapêutico assim que fosse possível.

 

4. CONCLUSÃO

O objetivo do presente estudo foi descrever um caso clínico de psicoterapia brevíssima. Foram descritas as principais técnicas de estabelecimento do vínculo e da confiança com a paciente. Os avanços e as limitações do processo terapêutico brevíssimo também foram apresentados por meio de exemplos da evolução do quadro clínico da paciente. O vínculo estabelecido entre a terapeuta e a Paciente foi crucial para o bom andamento da psicoterapia dinâmica brevíssima.

 

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABASS, A.B. (2003). The cost effectiveness of short-term psychotherapy. Expert Review of Phamacoeconomics Research, 3(5):535-539.

ASHER, S. (1979). Social Skill training: The selection of program content. Psychology Journal of Human development Research Center of San Francisco.

 

AVELINE, M. O. (1996). The training and supervision of individual therapists. In: Individual Therapy: A Comprehensive Handbook (ed. W. Dryden), 365–394. London: John Wiley & Sons.

 

BARKHAM, M.; SHAPIRO, D.; HARDY, G.E.; et al. (1999). Psychotherapy in two-plus-one sessions: outcomes of a randomised controlled trial of cognitive–behavioural and psychodynamic-interpersonal therapy for subsyndromal depression. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 67:201– 211.

 

BREUER, J.; FREUD, S. (1895/2010). Estudos sobre a histeria. Obras completas de Freud. São Paulo: Companhia das Letras.

 

COOPER, A.M.; GABBARD, G.O.; PERSON, E.S. (2007). Compêndio de psicanálise. Porto Alegre: Artmed.

 

FIEDLER, L. (1953). Handbook of psychotherapy. New York: Holton.

 

FELDMANN, C. (1999). Construindo a relação de ajuda. Porto Alegre: ArtMed.

 

LAZURE, H. (1994). Viver a relação de ajuda. Lisboa: Editora Lusodidacta.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. (1993). Classificação internacional das doenças – 10a revisão. Porto Alegre: Artmed.

 

PICHON-RIVIERE, E. (1980). Teoria do Vínculo. São Paulo: Martins Fontes.

 

ROGERS, C. (1973). Psicoterapia e consulta psicológica. São Paulo: Martins Fontes.

 

ROGERS, C. R. (1992). Terapia Centrada no Cliente. São Paulo: Martins Fontes.

 

TRAVELBEE, J. (1992). Intervención en enfermería psiquiátrica. Cali: Carvajal.

 

YALOM, I.D. (2007). O carrasco do amor e outras histórias sobre psicoterapia. Rio de Janeiro: Editora Ediouro.

 

ZIMERMAN, D.E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Prática e Clínica. Porto Alegre: ArtMed, 1999.

Categorias
Casos Clínicos

Angústia infantil: um estudo de caso clínico

RESUMO

O presente artigo apresenta os resultados de um estudo de caso clínico que buscou compreender os processos psíquicos associados às manifestações de angústia e do sintoma na infância. Com base na teoria psicanalítica, pretendeu-se identificar a representação do paciente de suas figuras parentais, assim como seu lugar na trama familiar. A compreensão deste caso foi realizada através das sessões de psicoterapia de orientação psicanalítica e do Teste das Fábulas (Cunha & Nunes, 1993). A análise do caso permitiu verificar que a angústia estava associada às questões da configuração familiar que colocavam o paciente em uma posição de dependência da função materna (exercida pela avó). Supõe-se que a representação era de uma figura materna sufocante, ficando alienado no lugar de objeto. Espera-se, com este trabalho, fornecer subsídios para o aprimoramento teórico conceitual da angústia e do sintoma na infância, bem como para o trabalho clínico em psicoterapia de orientação psicanalítica.

Introdução

É consenso entre as escolas da linha psicanalítica que a infância ocupa um lugar central na constituição e estruturação psíquica do sujeito. Pela importância desse período da vida, as diferentes abordagens psicanalíticas compreendem as vicissitudes da primeira infância como determinantes para a personalidade e para as escolhas futuras do sujeito (Ferrari & Donelli, 2010). Todavia, a importância dada ao período da infância como momento fundamental do desenvolvimento humano, principalmente considerando os aspectos de estruturação do aparelho psíquico ligados à sexualidade e do desejo parental, é recente.

Nesse sentido, o lugar que a infância ocupa na psicanálise atual reflete toda uma mudança na concepção dessa faixa etária, ocorrida ao longo dos séculos. Assim, ao refletirmos sobre o lugar da infância ao longo da história, observamos que apenas no século XIX, com a posição freudiana acerca da sexualidade e o infantil, é que vai acontecer uma profunda transformação na forma como essa era entendida. Na Idade Média, a criança era vista como um pequeno adulto, não sendo percebida por suas características merecedoras de cuidados específicos e especiais. Foi somente com as teorizações de Freud (1996), mais precisamente em 1905, com os “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, e sua teoria sobre o complexo de Édipo, que essa concepção se modificou, contemplando a criança como um ser dotado de sexualidade, com um corpo pulsional, de desejo (Costa, 2007).

A criança, para a psicanálise, sente tristeza, raiva, solidão, desejos destrutivos, vivencia conflitos e é portadora de sexualidade. Isto quer dizer que a criança é um sujeito desejante, que demanda amor e não somente objetos que satisfaçam suas necessidades. No entanto, a constituição da criança começa mesmo antes de ela nascer, ou seja, ela já é investida pelos pais, cuidadores e pela família. É marcada pelo desejo inconsciente dos pais (que possuem marcas de seus respectivos pais), já representando algo para um e para o outro. Assim, em função da história singular de cada um de seus pais, ela já possui um lugar simbólico demarcado na trama familiar (Priszkulnik, 2004).

Desta forma, os estudos psicanalíticos abordam a questão das manifestações de sintomas na infância como anúncio de que algo não vai bem, não apenas com a criança, mas também com o casal parental, pois a criança é o objeto de desejo inconsciente dos pais (Motta, Silva & Castro, 2010). Segundo Lacan (2003), o lugar dos pais no sintoma infantil é fundamental, podendo o sintoma na criança vir a representar uma resposta dela ao que existe de sintomático na estrutura familiar ou uma apropriação pela criança das produções fantasmáticas do Outro.

Nesse sentido, para além das contribuições freudianas sobre a importância da sexualidade infantil e da relação estabelecida com os pais da infância, Lacan (2003) destaca que o desejo parental vai igualmente dar expressão ao que há de sintomático na criança. Por exemplo, o desejo materno é fundamental para incluir a criança em um lugar de existência. Porém, a criança não deve ficar presa a esse desejo. Da mesma forma, precisa da função paterna para romper com essa relação dual, para que, assim, não seja para sempre o objeto do desejo da mãe. Todavia, a criança pode vir a ocupar o lugar de fantasma do desejo materno. Com isso, o sintoma infantil relaciona-se fortemente com as funções parentais, ou seja, com a trama familiar na qual ela está inserida (Zornig, 2008). Destarte, em resposta a essas situações, a criança irá expressar seu sintoma em relação à posição que ocupa nesta trama.

O sintoma infantil manifesta-se de diversas maneiras. Há, porém, uma manifestação clínica fundamental nos processos psíquicos, que é a angústia. Desde os primórdios da psicanálise, no caso clínico do Pequeno Hans, Freud (1909) discorre extensamente sobre a compreensão das manifestações de angústia na infância, como também vai inaugurar a análise infantil. Naquele momento inicial, questões da sexualidade e da fase edípica predominaram na leitura freudiana do sintoma de Hans. Sem dúvida, na atualidade, o entendimento da angústia infantil reveste-se de uma leitura singular e complexa. Permanece, porém, dentre todas as situações relativas ao sofrimento psíquico na infância, ocupando um lugar central na apreensão do sintoma da criança (Zornig, 2008).

Ainda hoje, o estudo das manifestações de angústia infantil mantém-se como um tema instigante voltado para o entendimento de como uma criança poderia responder com o seu sintoma ao que há de sintomático na estrutura familiar? Nesse sentido, perguntamo-nos como o ideal almejado pelas figuras parentais, juntamente com suas fantasias, seus desejos e neuroses podem, de alguma forma, interferir e, por consequência, contribuir para a eclosão do sintoma na criança? E, nesse caso, qual a representação1 da figura materna e paterna bem como do lugar que a criança ocupa na trama familiar?

Tais questionamentos deram origem a esta pesquisa, que discute os processos psíquicos associados às manifestações de angústia e do sintoma na infância, a partir do estudo de caso de um menino de oito anos que manifestava intensa angústia. Iniciaremos esta discussão retomando de forma sintética as principais ideias freudianas e contribuições posteriores de autores pós-freudianos.

Nos desdobramentos da construção teórica de Freud, o conceito de angústia pode ser entendido, de uma forma geral, como um afeto de desprazer que se manifesta no sujeito, em lugar de um sentimento inconsciente, na espera de algo que ele não pode nomear (Chemama & Vandermersch, 2007). Historicamente, encontramos duas teorias na evolução das ideias freudianas para a compreensão da angústia. Nos anos de 1890, na primeira teoria da angústia, esta era interpretada, basicamente, como a impossibilidade de elaboração psíquica do sujeito, tendo a inscrição corporal como uma via possível. Nesse sentido, a neurose de angústia2 manteria a tensão física sexual longe do psíquico, impossibilitando sua elaboração psíquica (Freud, 1895/1996). Nos anos de 1920, na segunda teoria da angústia, esta passa para o domínio do psíquico. Freud (1926/1996), então, afirma que é da angústia que surge o recalque3, e a angústia viria como um sinal do eu, sinal de um perigo, de um desejo enigmático, de um medo imaginário da castração. É no caso clínico do Pequeno Hans, que Freud (1909/1996) vai introduzir uma nova entidade clínica, chamada de histeria de angústia, cujo processo se assemelha ao da histeria, mas na qual o sintoma fóbico é central (Chemama & Vandermersch, 2007).

Ao percorrer as contribuições pós-freudianas, encontramos em Lacan um estudo aprofundado com relação à angústia. Há uma distinção importante entre a angústia em Freud e a angústia em Lacan. Em Freud (1926/1996), a angústia não possui objeto, e seria basicamente um sinal para que o recalque fosse acionado, estando vinculada ao temor da castração e à perda de um objeto fortemente investido. A angústia na concepção de Lacan (2005) não seria sem objeto, mas estaria relacionada com o objeto perdido, objeto que Lacan nomeou de objeto a.

É importante explicitarmos o lugar no qual se constitui o objeto a. Para isso, voltamos para a primeira experiência de satisfação do bebê (satisfação total, mítica), quando ele demanda, por exemplo, através do grito o seio (alimento). A satisfação de sua necessidade fará com que essa experiência seja única. Quando demandar o seio novamente, a satisfação será somente parcial, pois jamais será igual à primeira. A partir disso, surgem os mal-entendidos, isto é, quando o bebê chora por fome, e sua mãe acha que ele está com frio. A criança, então, vai transformar o objeto real em uma imagem alucinada e, quando houver a ausência do objeto de satisfação, fará com que a imagem dele também constitua uma representação simbólica. Assim, sempre que procurar novos objetos, o sujeito irá tentar reencontrar o objeto original que foi perdido, o objeto da satisfação total (Nasio, 1993).

Essa primeira experiência, então, marcará uma perda, um resto, que causa no sujeito a busca do reencontro, isto é, o reencontro do objeto perdido. É aí que o objeto a aparece, nomeando esta falta, no lugar de resto. Mas por quê? O objeto a vem no lugar dessa falta, pois, para o sujeito ser desejante, é preciso que o objeto causa de seu desejo lhe falte. É quando algo vem ocupar o lugar do objeto faltoso do desejo, que a angústia surge, alarmando que o lugar da falta que é estruturante pode vir a ser ocupado. A angústia vem denunciar a falta da falta, isto é, vem denunciar a completude do sujeito, não castrado. Assim, a angústia vai apontar para a tentação de que não haja falta no outro, ou seja, que o outro não seja castrado, faltante, vindo alarmar essa completude (Pisetta, 2009).

A partir disso, ao adentramos nas manifestações de angústia, inevitavelmente passamos pelo campo do sintoma na infância, pois as ligações entre o conceito de angústia e o conceito de sintoma se tornam evidentes. O sintoma, na perspectiva psicanalítica, é um fenômeno subjetivo, que constitui a expressão de um conflito inconsciente (Chemama & Vandermersch, 2007). Na concepção de Freud (1926/1996), o sintoma é o retorno do recalcado, ou seja, a libido insatisfeita que encontra uma satisfação substituta. O sintoma advém do recalcamento e torna-se independente do eu, impedindo que os sintomas permaneçam isolados buscando agregá-los a sua organização. No entanto, o sintoma liga-se à angústia quando testemunha que o recalque falhou. Assim, a angústia é anterior ao sintoma, e a constituição deste vem como mecanismo para limitar a aparição da angústia.

Todavia, se o sintoma tenta preencher a falta primordial, mascarando a angústia, esta vem reclamar seu lugar de constituição, isto é, de que há falta. A angústia indica, então, que a falta que constitui o sujeito vem a faltar, já que está sendo preenchida. Ao abordar o sintoma infantil, Lacan (2003) o relaciona com a resposta da criança ao que existe de sintomático na estrutura familiar, podendo a criança se apropriar das produções fantasmáticas do Outro. Quando o sintoma decorre da subjetividade da mãe, a criança é correlata de uma fantasia. Assim, quando não tem mediação (em geral, assegurada pela função paterna), a criança fica exposta às fantasias da mãe, tornando-se objeto desta e tendo como função revelar o que está oculto. A criança, então, substitui este objeto, mostrando a falta em que se especifica o desejo (da mãe). Seguindo por esta linha, Mannoni (1999) afirma que o sintoma aparece na criança como uma máscara, e que seu papel é esconder o acontecimento perturbador. Na ausência do direito de se significar na linguagem, é através do sintoma que a criança manifesta o que tem a dizer.

Contudo, é preciso discriminar em que fase do desenvolvimento psíquico se encontra a criança. Algumas manifestações sintomáticas podem surgir na criança em uma fase em que o aparelho psíquico pode não ter se constituído para que haja inscrição das representações. Com isso, essas manifestações se apresentam de forma transitória. Não podem ser consideradas como sintomas ou uma constituição patológica, mas sim como uma tentativa da criança de se organizar psiquicamente (Zimmermann, 1997; Zornig, 2008).

Assim, a constituição da subjetividade na criança advém do campo do Outro. A criança se constitui psiquicamente através de sua relação com as funções parentais e, por consequência, o sintoma, muitas vezes expressado pelas manifestações de angústia, relaciona-se a uma fase posterior, de ordem mais edípica. Portanto, é a alienação imaginária do bebê com o Outro e a função primordial do pai no complexo de Édipo que vai possibilitar à criança se constituir como sujeito desejante. É preciso, então, que ocorra uma separação da criança do desejo mortífero materno, isto é, separação da criança de ser para sempre o objeto de desejo da mãe, e é neste momento que a função paterna é essencial (Zornig, 2008).

A partir disso, fica claro que a angústia infantil está extremamente ligada à trama familiar, na relação da criança com os pais. É através do complexo de Édipo e da castração que as manifestações de angústia poderão surgir no sujeito, pois o Édipo e a castração marcam um corte na relação da criança com seus pais (cuidadores). Porém, a neurose e os desejos parentais vão inferir de forma profunda na constituição de seu sintoma (Couto & Chaves, 2009; Fuks, 2001; Rego, 1998).

Sendo assim, este artigo tem como objetivo discutir os processos psíquicos associados às manifestações de angústia e do sintoma na infância, a partir do estudo de caso de um menino de oito anos que manifestava intensa angústia. Indaga-se como esta criança poderia responder com o seu sintoma ao que há de sintomático na estrutura familiar. Da mesma forma, visa compreender qual a representação da figura materna e paterna bem como o lugar que a criança ocupa na trama familiar.

 

Método

O método adotado nesta pesquisa é o clínico-qualitativo que, segundo Turato (2005), compreende mais profundamente sentimentos, ideias e comportamentos de pacientes e também de seus familiares. Além disto, o pesquisador está incluído como instrumento de pesquisa, usando de seus sentidos para abranger o objeto em estudo. O método clínico-qualitativo é voltado em específico para os settings das vivências em saúde, buscando interpretar os significados, trazidos pelos sujeitos, dos múltiplos fenômenos de seus problemas. Este método aborda as relações, as estruturas sociais e os atos quanto à sua transformação e construção significativa.

Em relação a esta pesquisa, o aspecto clínico-qualitativo se insere na perspectiva da pesquisa em psicanálise. Conforme Iribarry (2003), a pesquisa em psicanálise trabalha tanto com a impossibilidade de prever o inconsciente, quanto com a singularidade e o estilo particular do analista (pesquisador) que se coloca para um outro, não incluindo a generalização. O pesquisador está em um processo de descoberta e revelação e até de renovação de seu campo.

Participante, procedimentos, instrumentos

A presente pesquisa foi constituída pelo estudo de caso de uma criança de oito anos, do sexo masculino, denominado Nicolau. Ele foi encaminhado para atendimento na clínica-escola de uma Universidade da região metropolitana do sul do País. O caso foi delimitado com base nos motivos de encaminhamento, que se constituíram por manifestações de angústia, medos e situações associadas a comportamentos fóbicos.

Primeiramente, realizou-se uma busca nos prontuários da lista de espera da clínica- escola. Após a identificação de crianças cujas queixas se restringiam às situações de medos e manifestação de angústia, foram realizados os contatos com os responsáveis para verificar o interesse no atendimento e a confirmação do sintoma. Neste primeiro contato, foi explicitado o objetivo do trabalho, e solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, CEP 10/154, respeitando todas as normas da Resolução 196/96 do Ministério da Saúde. A criança que participou do estudo de caso tinha a possibilidade de ser encaminhada para seguimento do atendimento psicológico, caso necessitasse. Com a concordância, foram combinados os atendimentos. Inicialmente, fez-se uma entrevista para coletar os dados da história da criança, do sintoma e outros dados. As demais crianças foram encaminhadas para atendimento na Clínica.

Foram realizados vinte e um atendimentos, com frequência semanal, com duração da sessão de aproximadamente 45 minutos. Após cada sessão, o relato foi efetuado pela terapeuta, a partir da associação livre. Os instrumentos utilizados foram a psicoterapia de orientação psicanalítica, com entrevistas não estruturadas com pais e/ou responsáveis (quando necessário), e o Teste Projetivo das Fábulas. Este foi aplicado como forma de sistematizar as principais representações infantis acerca de situações conflitivas da infância, especialmente daquelas ligadas às figuras parentais, sendo que o objetivo principal foi o de utilizá-lo como um dispositivo clínico.

Com base no material coletado através das sessões de psicoterapia de orientação psicanalítica com a criança, o Teste das Fábulas e entrevistas com responsáveis, realizou-se a análise compreensiva do caso. O estudo do caso está ligado profundamente à experiência clínica. Em primeiro lugar, acontece a sessão e, logo, a elaboração do sentido daquilo que ocorreu no atendimento, seguindo o caminho do pathos do paciente. A escrita da clínica psicanalítica acontece a posteriori à clínica. Ao se escrever sobre o caso, abre-se caminho para entrarmos no campo da experiência compartilhada no nível de teorização (Guimarães & Bento, 2008). Na presente pesquisa, realizamos o estudo de caso, através da integração do material. Para a teorização da clínica, utilizamos como referencial o aporte psicanalítico para discussão e reflexão sobre o significado inconsciente das produções.

Psicoterapia de orientação psicanalítica infantil

Ao direcionarmos nossa atenção para os atendimentos de orientação psicanalítica infantil, remetemo-nos à descoberta da análise infantil propriamente dita que só aconteceu com o caso do Pequeno Hans, no qual Freud (1909/1996) tornou este o caso modelo da psicanálise de crianças. Este caso clínico demonstra que a interpretação com crianças é possível. A criança é o suporte do que os pais, muitas vezes, não podem representar. Com isso, ela revela o que se deseja, geralmente, manter oculto (Mannoni, 1999).

A psicoterapia de orientação psicanalítica infantil segue o pressuposto de que o psicoterapeuta não é um educador, não julga nem aconselha. O trabalho do terapeuta é principalmente observar a criança, colocar em palavras suas angústias, o que ela sente, seus conflitos. Seu papel é apresentar-se como um profissional neutro, à escuta do sofrimento da criança. É a análise da transferência (Dolto, 1996).

Nos desdobramentos da psicoterapia de orientação psicanalítica com crianças, consequentemente, a relação transferencial aparece, pois a psicoterapia de crianças não se dá somente pela fala livre, como a dos adultos. Mas como pensar a transferência na psicoterapia de crianças? Na psicoterapia de crianças, estamos diante de diferentes transferências, ou seja, da transferência do terapeuta, dos pais e da criança. Os pais, com seus afetos, suas emoções e seus conflitos, fazem parte do sintoma da criança; sendo assim, fazem parte também do tratamento. Portanto, ao tocarmos no sintoma da criança, arriscamo-nos a fazer emergir o que no sintoma servia para alimentar ou para obturar a ansiedade do adulto. Sendo assim, a questão é ajudar a criança a sair de um certo jogo de equívocos, o que pode ser alcançado se soubermos que a experiência da transferência no tratamento infantil se dá através do terapeuta, da criança e dos pais (Mannoni, 1999).

Partindo do mesmo questionamento, o terapeuta de crianças se depara com duas posições: na primeira, ele é o parceiro do jogo, no qual a criança vai apresentar e representar sua história; no segundo, o terapeuta vai esperar o “tropeço”, isto é, o novo, o que vai surgir no decorrer do tratamento. Em particular na psicoterapia de orientação psicanalítica com crianças, encontramos alguns desafios, principalmente no que diz respeito às decisões tomadas pelos pais. São eles que procuram o tratamento para o seu filho, são eles que, em geral, levam a criança para a psicoterapia e tentam encontrar soluções que façam a criança voltar para o caminho certo da educação que lhes deram (Costa, 2009; Roizin, 2009).

É preciso estarmos atentos para a questão referente à queixa da criança que se configura na psicoterapia de orientação psicanalítica, e que não é (e não será) necessariamente a mesma da queixa dos pais. No entanto, não podemos dedicar menos atenção à fala deles. Muito pelo contrário; escutar os pais faz parte do tratamento. Escutá-los para identificar em que lugar a criança encontra-se situada no desejo deles, no discurso que eles mantêm em relação ao seu filho. É aí que a psicoterapia da criança pode se tornar inquietante para os pais. Muitas vezes, é o que faz com que eles retirem a criança do tratamento: geralmente neste ponto, quando algo começa a afetá-los. A partir do manejo da transferência com os pais, com a criança e o desejo do terapeuta é que o enigma se apresenta, e o tratamento poderá se transformar em questão para um ou mais dos sujeitos envolvidos (Costa, 2009; Roizin, 2009).

No atendimento com crianças, o terapeuta introduzirá, através de sua espera e de sua não demanda, o confronto da criança com um adulto que não é imperativo, que não ocupa a posição de mestre, que não lhe dá orientações do que deve ou não fazer, não lhe ensina, enfim, não lhe pede nada. Isso aparece como efeito apaziguador para a criança, pois ela se depara, então, com um Outro que deseja nada especial, apenas que ela siga suas questões com fins de desvelar o desejo que a leva para a retomada da construção do desenvolvimento. Portanto, o tratamento virá a proporcionar a passagem da criança da posição de objeto – na qual foi destinada a ocupar na fantasia do Outro – para ter acesso ao seu desejo em uma condição de sujeito (Costa, 2009).

Sendo assim, na clínica com crianças, o terapeuta deve ter a disponibilidade de ouvi-la, como também a sua família, pois, se não se escuta a demanda trazida pelos pais, a análise da criança não se torna possível. A escuta analítica dos pais destaca o nó que os une à criança através do sintoma desta. Isto quer dizer que a questão que estava antes alienada, retorna para o sujeito que a traz. A estrutura que sustentava os lugares distribuídos de determinada maneira desmonta-se. Desmontar a estrutura que se apresentou, destacando o enodamento que une os pais e a criança sintomaticamente, fará com que cada um remeta-se às suas próprias questões (Faria, 1998).

Teste das Fábulas

O Teste das Fábulas, aplicado como instrumento para análise do caso, foi validado por Louisa Duss (cujos primeiros estudos foram feitos em 1940) e traduzido para o Brasil pelas autoras Jurema Alcides Cunha e Maria Lúcia Tiellet Nunes em 1993. Pode ser utilizado na clínica para avaliação psicodinâmica com crianças, adolescentes e adultos. A técnica deste teste é projetiva aperceptiva (interpretação subjetiva da percepção), facilitando a projeção e a manifestação do material inconsciente. Neste teste, o sujeito faz uso da projeção, sendo possível avaliar as áreas da personalidade. É um instrumento qualitativo, com referencial teórico freudiano (Cunha & Nunes, 1993).

As fábulas possuem vantagens para a prática de diagnóstico e psicoterapia. Entre essas vantagens, está o bom contato com o sujeito, uma transferência inicial positiva e identificação de projeções. Cada fábula é dirigida a uma área da vida do sujeito e busca fazer emergir os conteúdos latentes que possam estar provocando angústia (Fonseca & Mariano, 2008). A técnica projetiva é enriquecida com conceitos teóricos que ajudam a chegar a uma apreensão do caso. O Teste das Fábulas é indicado para detectar situações de crises, neuroses e psicoses. Também é um útil recurso para o entendimento psicodinâmico da criança (Cunha & Nunes, 1993). Portanto, cada um dos instrumentos projetivos possui particularidades próprias de interpretar os resultados, mas apresenta sempre algo peculiar do sujeito e seu inconsciente (Fonseca & Mariano, 2008).

Ao tratarmos da relevância do instrumento do teste projetivo, remetemo-nos à importância que estes possuem na clínica, com o seu jogo de construção e reconstrução, incentivando o risco da enunciação. Para a psicanálise, o uso de testes projetivos, tanto na clínica, quanto em pesquisa, conta com algumas resistências, embora alguns estudos franceses demonstrem que a utilização deste Teste é eficaz para o tratamento (Boekholt, 1993; Rassial & Pereira, 2007; Sublime, 2003).

Os testes projetivos, que têm como finalidade uma avaliação psicodinâmica da personalidade, são muito usados pelos psicólogos, com a expectativa de revelar a personalidade inconsciente de seus pacientes. Com isso, as motivações pessoais, os conflitos, as experiências de vida do paciente surgem através da projeção. Sem dúvida, os testes projetivos possuem um importante valor na prática clínica e nos contextos de avaliação psicológica, e novos estudos que se utilizem destes são sempre bem vindos (Werlang, Fensterseifer & Lima, 2006). Assim, nesta pesquisa, foi utilizado o Teste das Fábulas como um dispositivo clínico, o que não deixa de ser um ato de autorização e um diferencial para a mesma.

Para Sublime (2003), os testes projetivos podem ser considerados como uma proposta metafórica: há interlocução dos assuntos, com uma série de enunciados, levando o sujeito a pronunciar-se por um ato de enunciação, incentivando uma arte singular, ato de autorização. Segundo a autora, o teste projetivo em crianças viria convocar o momento do espelho, em que a criança espera um sorriso, um olhar, ou ainda um elemento sonoro vindo do Outro, que vem nomeando, autenticando sua imagem. Somente é possível pela não indução do terapeuta e por sua atenção e implicação. Rassial e Pereira (2007) aderem à ideia de que os testes projetivos são instrumentos muito apropriados, dado que não se baseiam em autoavaliação, não reduzindo um sentimento ou o desaparecimento de sintomas (Rassial & Pereira, 2007).

Boekholt (1993) afirma que contar uma história é falar não pela necessidade, mas pelo prazer de falar; é juntar-se ao discurso-comunicação, a um discurso lúdico. A expressão pulsional, então, afasta-se da via corporal e da palavra-coisa para dotar-se de representantes psíquicos e abrir-se ao jogo indefinido das representações. A situação dos testes projetivos mobiliza a criança, para a capitalização de recursos psíquicos novos, e no período de latência, recorre à regressão.

 

Resultados e Discussão

Organizamos o caso clínico de Nicolau com base na história de vida do menino, nas sessões clínicas e na interpretação do Teste das Fábulas (Cunha & Nunes, 1993). Assim, apresentamos a síntese da história e das sessões, seguidas da análise do Teste. Por último, realizamos a discussão clínica e integração do caso.

Síntese da história de vida

Nicolau é um menino de oito anos, que cursa a terceira série do ensino fundamental. No discurso de sua mãe Rose4, Nicolau é muito nervoso, chora por qualquer motivo, não pode ser contrariado e rói as unhas dos pés e das mãos até sangrar. Rose relata que a gravidez de Nicolau foi complicada, pois ela sangrava muito. Conta que o filho sofreu um acidente com um ventilador em casa. O ventilador pegou fogo em seu quarto, ocasionando uma queimadura em seus pés. Ressalta, porém, que antes deste incidente, ele já era medroso; tinha vários medos, principalmente de ficar sozinho, em qualquer peça da casa. Além disso, Nicolau não fazia nada sozinho, não assistia à televisão, não ficava no quarto e sempre solicitava ter alguém junto a ele em quase todos os momentos. No momento atual, fica sozinho à tarde por duas horas, mas a avó tem que “fugir do trabalho para espiá-lo5. A mãe conta que, certo dia, Nicolau gritou muito por socorro em casa, e tiveram que chamá-la em seu trabalho. Não era nada grave e, sim, o medo de ele ficar sozinho.

Seu pai, Ronaldo, reside em outra cidade. No discurso de Rose, este pai não se faz presente na vida do filho, chegando a ficar um ano sem ver o menino. Quando diz que vai buscá-lo, o filho se arruma, fica esperando, e o pai não aparece. A separação do casal aconteceu quando Nicolau tinha dois anos e foi um pouco conturbada, pois eles brigavam muito. Nessa época, uma das irmãs de Nicolau já tinha nascido e frequentava uma creche. A menina voltava para casa “assada“. Nessa ocasião, Rose descobriu que o dono da creche abusava da menina e o denunciou a polícia. Este momento foi muito difícil para Nicolau, que viu a tristeza e o desespero da família.

No discurso da avó Catharina, aparecem questões que nos ajudam no desenrolar do caso. A avó, que em alguns atendimentos “invadiu” a sala, demonstra preocupação e, muitas vezes, desespero. Catharina diz ver Nicolau como seu filho. Segundo ela, Rose brigava muito com ele quando ele era mais novo e, por esse motivo, elas decidiram que ele iria morar com ela, com a condição de que seria definitivo. Uma cortina divide o quarto que Nicolau compartilha com a avó. Catharina relata alguns medos em relação a Nicolau: não gosta que ele tenha amigos, nem que ele saia de casa. Conta que, quando Nicolau era pequeno, todas as atenções eram voltadas a ele; “a gente não deixava nem ele cair“. Depois, vieram os acontecimentos: “a chegada das duas irmãs, a separação de seus pais, ele indo morar comigo, o meu namorado“. Catharina diz não namorar em casa por respeito a Nicolau.

Com relação ao pai de Nicolau, o discurso da avó se mostra semelhante ao de Rose. Catharina afirma que Nicolau “é louco pelo pai“, mas este não quer saber dele. Atualmente, o pai está com outra família e com um filho pequeno.

Observamos que a demanda por atendimento traduzia-se na queixa de manifestações de angústia juntamente com o nó aparente no qual a trama familiar se encontrava. A função materna, evidentemente, é ocupada pela avó. A sua mãe cria e cuida de suas duas irmãs, mas não de Nicolau. O nó que os une e que se faz ecoar nos sintomas de Nicolau vem anunciar que algo não está bem. Através do tratamento, teremos a possibilidade de estremecer esses lugares, para que surjam questionamentos passíveis de mudança.

Síntese das sessões

Nas primeiras sessões com Nicolau, fica evidente a impossibilidade do menino de se desgrudar das figuras cuidadoras, principalmente da avó. Nos atendimentos que se seguem, a avó de Nicolau marca sua presença, pedindo para conversar em particular. Ao dizer se tratar de algo urgente, combinamos ocupar alguns minutos da sessão de Nicolau, mas que marcaríamos uma entrevista separada. Catharina relata que Nicolau não sabe ler nem escrever e que a professora o passou de ano por pena. O diretor pediu um exame neurológico, pois Nicolau demonstra, além dessas dificuldades na escola, desatenção e sonolência em aula.

Ao relatar sua relação com Nicolau, começa a ficar mais evidente qual o lugar que ele ocupa na vida da avó. Ela não o deixa sair de casa e não quer que ele faça amigos, ou seja, o quer só para ela. No tempo limitado que tínhamos, ela deixa mais evidente suas fantasias. Em relação a Nicolau ter amigos: “ele é muito bobinho, influenciável; depois vai que ele começa a se drogar com esses amigos, e fazer bobagem“.

No decorrer dos primeiros atendimentos, Nicolau demonstra certa colagem em relação aos brinquedos. Exemplo disso está em não conseguir montar uma casa de brinquedo diferente da figura da caixa. Porém, aos poucos, Nicolau vai se desprendendo em sessão, inventando brincadeiras, inserindo nessas brincadeiras regras e leis. Deste modo, ele vai conseguindo se autorizar mais em sessão e, mesmo que minimamente, tem a possibilidade de se desprender.

No tratamento, Nicolau demonstra desejo em certas atividades da escola: esportes e aulas extras. Nas sessões que prosseguem, Nicolau precisa confirmar que vai ter alguém o esperando em casa quando voltar. Pergunta para a avó ou para a mãe, quando estas o acompanham ao tratamento, se elas o esperaram em casa logo após terminar a sessão. Nicolau começa a praticar as atividades que desejava, entre elas, jogar futebol e aulas particulares, demonstrando muita empolgação para com elas.

A avó marca presença nas sessões, dando alguns recados, querendo conversar, ou simplesmente invadindo a sala, dizendo-se desesperada. Dentre os recados, então, a disponibilidade da professora em conversar, mas o número da escola e/ou da professora me foi concedido com resistência. Após inúmeras tentativas de conversar com a professora, tornou-se evidente a impossibilidade disso acontecer. Peço, também, o telefone do pai de Nicolau. Novamente sinto a resistência da avó, que já se justifica de antemão, afirmando que Ronaldo está sempre trocando o número do telefone, e frequentemente está muito ocupado.

Sem saber, neste momento, introduzo o pai nessa relação patológica na qual se encontra Nicolau. Ao nomear o pai em sessão, fica claro que ele é importante para a vida do menino, que é preciso saber sua posição, seu discurso, e sua presença na trama familiar. Conversar com o pai torna-se praticamente impossível. Os telefones que me foram concedidos só davam na caixa postal, impossibilitando meu acesso. Nas sessões seguintes, Nicolau demonstra muita insegurança nos jogos, fica ansioso e acha que vai perder sempre. Ele antecipa a perda, a todo o momento. Essa perda tão demarcada nas sessões pode indicar que Nicolau se percebe em um lugar de desvalia, isto é, desprotegido, o que, por sua vez, pode ter relação com a ausência da função paterna, ou o medo em perder o pai completamente. Assim, o menino faz suplência ao pai através de sua angústia. Ele demanda a função paterna para sair da posição de objeto na qual se encontra.

Agendo uma sessão separada com Catharina. Nesta consulta, algumas das fantasias inconscientes da avó se revelam, demonstrando um pouco mais a relação que ela possui com Nicolau e qual a posição que seu neto ocupa na estrutura dessa família. Catharina afirma que Nicolau não se desgruda em nenhum momento e que está muito agressivo. Não sabe o que fazer.

O motivo mais aparente do descontrole da avó se faz desvelar na notícia que os vizinhos lhe dão. Estes a informaram que, quando ela está trabalhando, Nicolau fica na porta do prédio onde reside e, às vezes, caminha até a esquina. Ela fica furiosa por saber que ele andava na rua sem sua permissão, mesmo que só à frente de casa. Catharina diz amar Nicolau, mas não sabe se vai seguir morando com ele, se ele continuar agindo assim: “eu amo ele, mas desse jeito não vai dar. Não tenho mais idade“. No final, marcamos outro horário.

Na nova sessão agendada, a avó afirma que Nicolau está feliz agora, pois foi visitar o pai. Eis que o pai finalmente aparece, surpreendendo no desenrolar do tratamento. Catharina justifica que era aniversário de Ronaldo, e que ele entrou em contato, pedindo que o filho fosse passar o final de semana com ele. Segundo o relato da avó, Nicolau ficou muito feliz e teve que “implorar” que ela o deixasse ir. Ela relata que Nicolau adora vir à psicoterapia, mas que depois que começou o tratamento, ficou muito medroso. Saliento que foi por esse motivo que ele começou o tratamento, mas Catharina afirma que Nicolau ficou mais medroso do que antes. A transferência se faz presente, sendo que o motivo do medo do paciente é transferido para mim, ou seja, é por causa do tratamento que Nicolau está pior.

Catharina relata que Rose é muito irritada com Nicolau, não tem paciência. “Mesmo sendo uma ótima filha, como mãe ela deixa a desejar“. No discurso da avó, Rose não é suficientemente boa para o filho. Ao falar do neto, Catharina fala também de seus próprios medos: “o Nicolau é muito romântico, muito ingênuo, tem medo que as pessoas abandonem ele, daí ele não briga com ninguém. Tenho medo que façam chantagem com ele, que ele fique apanhando, que nem ele apanha desse amigo que não é amigo, e não reage, depois vai lá e conversa com o menino de novo, tem medo de não gostarem dele“. No final da consulta, sugiro a Catharina que procure atendimento psicológico para ela, no qual possa falar e refletir sobre suas questões.

Na sessão seguinte com Nicolau, este chega demonstrando felicidade. Relata que foi ver o pai e que gostou muito. Era para ele ficar o final de semana, mas permaneceu a semana inteira. Conheceu seu irmãozinho mais novo, que tem oito meses, e diz ter sido bem tratado. Relata que, no próximo feriado, está combinado de ele ir ver o pai novamente. Está animado, pois vai ver o pai com mais frequência. Nas sessões subsequentes, Nicolau relata que está indo sozinho para os atendimentos e para o treino de futebol.

Mais uma vez, é necessário agendar um atendimento com a avó, que seguia adentrando nos atendimentos do neto, demonstrando desespero. Ofereço um horário no qual Catharina está trabalhando, e Nicolau lhe alerta sobre isso. Ela diz conseguir sair do trabalho: “eu dou um jeito, faço tudo pela minha vida, meu amor (referindo-se ao Nicolau)“. O atendimento mostrou-se revelador. Catharina chega comentando que conseguiu dar uma “fugidinha” do serviço, pois trabalha há anos no mesmo local, e o patrão a conhece: “ele sabe que faço tudo pelo meu amor, minha vida“.

O discurso de Catharina em relação a Nicolau revela-se mais patológico no sentido de ele não estar no lugar de neto, ou mesmo, filho, mas de um marido, homem, amante. Seu desejo, demonstrado de forma impositiva, visa ao homem ideal, parceiro, companheiro. Catharina relata que um colega de trabalho tem dois filhos e que eles convidam Nicolau para brincar. Nicolau insiste, mas ela não deixa, pois tem medo.

A avó não consegue sustentar sua palavra, isto é, deixa Nicolau de castigo, mas logo o libera, afirmando não saber guardar rancor, e que o neto “é romântico igual a ela“. Com relação ao menino morar com ela: “(…) ele é impossível, mas ele é minha vida. Já disse pra Rose que desse jeito não dá. Vou devolver ele pra ela… mas não vou, não consigo“. Catharina assume ter muitos medos, e se culpa pelo o que o neto está passando. Diz já ter passado por muita coisa na vida. Viu seu pai abusar de sua irmã, e sua mãe que prometeu sempre protegê-las não fez nada. Catharina não culpa sua mãe, “pois ela não estava em casa“, mas diz ter sofrido muito. Depois viu a história se repetir com a filha de Rose, “aquele horror na creche“. Afirma ter medo que façam algo semelhante ao Nicolau: “É disso que eu tenho medo que façam com o Nicolau, que o levem para o banheiro, que peçam pra ele fazer “coisas’… ele não sabe, é bobinho, e esses guris de hoje são violentos“. Nicolau lhe pediu para ir ao futebol sozinho. Ela não deixou, pois as ruas estão violentas e que ela iria atrás dele cuidando.

Dos amigos de Nicolau: “Ele (Nicolau) fica incomodando, quer trazer amiguinhos pra casa. Quer ir na casa dos amiguinhos, eu não deixo. Vai saber o que eles vão fazer? Eu não vou poder proteger….“. Ao final da sessão, sugiro novamente que Catharina procure por atendimento psicológico, pois seria importante tanto para ela, como para Nicolau, ela ter um lugar em que pudesse falar mais sobre as suas questões.

Na semana seguinte, agendo uma sessão separada com Rose, que demonstra, neste momento, conseguir ocupar um lugar materno, fazendo-se mais presente na vida do filho. Rose confirma o lugar que Nicolau está posicionado em sua relação com Catharina. Ela conta que seu padrasto faleceu logo quando Nicolau nasceu e, por esse motivo, Catharina se apegou muito ao neto, fazia e faz tudo por ele. Rose diz saber que o filho ama a avó de um jeito diferente. Diz saber do amor que seu filho tem por ela, mas com a avó é diferente: “eu sou a mãe dele, eu sei disso, mas a gente sente que eles se entendem…“.

Na sessão seguinte com Nicolau, começo a conversar sobre o término do tratamento, que está próximo. Ele comenta sobre seus amigos da escola. Relata que, na verdade, não são seus amigos, mas que gosta deles mesmo assim. Pergunto-lhe quem são seus amigos. Ele fica em silêncio, e fala sobre um menino que mora perto de sua casa, e de outro, mas que não lembra o nome. Nicolau demonstra não possuir amigos fora da escola; e os amigos da escola são violentos com ele, confirmando as fantasias da avó.

No decorrer das demais sessões, Nicolau vai conseguindo, de sua forma, ir se autorizando e se desprendendo, lidando com regras e leis, inventando jogos, lidando com a perda, tendo a possibilidade de ter voz. Assim, Nicolau mostra-se cada vez mais desprendido, participando de atividades na escola, indo à casa de amigos estudar e brincar. Relata que está sendo convidado para aniversários de coleguinhas da escola e vai ter a possibilidade de se fazer presente. Conversamos novamente sobre o fim do tratamento. Nas sessões seguintes, esse descolamento mostra-se mais evidente. Nicolau passou férias com seu pai e ficou mais que o tempo previsto.

Na penúltima sessão, conversamos sobre o término do tratamento. Ressalto seus avanços e Nicolau concorda. Ele diz que gosta de ir às sessões, e reconhece que muitas coisas mudaram, para melhor. Na última sessão, aviso para Nicolau que há duas semanas tento contatar sua mãe e sua avó, mas que não tenho retorno. Digo que se sua mãe e sua avó quiserem conversar comigo, podem entrar em contato. Encerramos, então, o tratamento.

Na outra semana, recebo o telefonema da avó de Nicolau. Ela quer conversar, e se diz muito preocupada e desesperada. Catharina diz querer “entregar” Nicolau. Relata que ele incomodou muito para ir à casa de um amigo, e ela acabou deixando, mesmo contrariada. Nicolau disse a avó que os pais desse amigo sabiam que ele ia visitá-los. Quando chegou para buscar Nicolau, Catharina percebeu que os pais do amigo estavam reclamando, pois não queriam crianças no bar (na casa do amigo, tem um bar na frente). Ela justificou, dizendo que Nicolau tinha-lhe avisado que os pais sabiam que ele ia passar à tarde com eles, mas estes negaram. Segundo Catharina, “não admiti isso, do Nicolau ter mentindo pra mim. Daí o Nicolau veio, e perguntei pra ele porque ele tinha mentido. Ele me respondeu agressivo, e eu virei um tapa nele. Não me lembro disso, estava com raiva, não me lembro de ter dado o tapa“.

Catharina conta que chegou em casa e bateu de cinta em Nicolau. No outro dia, ela percebeu que o rosto dele estava vermelho e inchado: “perguntei se ele tinha apanhado na escola, porque ele é um boca aberta, um trouxa! Ele disse que não, perguntei de novo. A Rose, que estava junto, também perguntou. Aí ele falou que tinha sido eu, que na hora que ele me respondeu, eu larguei a mão nele“. Catharina relata que avisaram na escola sobre a agressão, e reuniram o conselho da escola juntamente com Rose. Esta não deixou Catharina ir à reunião da escola.

Catharina afirma que Nicolau quer muito morar com o pai, e que ele voltou das férias muito bem: “ele veio das férias que passou com o pai maravilhoso, educado, parou de roer as unhas. Desde as férias com o pai ele não rói mais. Ele gosta de lá, voltou de lá, sentou comigo, parecia um adulto, e me explicou que ano que vem, ele vai ir morar com o pai, que o pai vai ver uma escola pra ele, e que, nos finais de semana, ele ia vir me visitar. Eu fiquei impressionada. Disse que também poderia ir visitar ele“. Depois de escutar e trabalhar ás preocupações da avó, reafirmo-lhe o término do tratamento com Nicolau e reforço que, agora, o mais importante era eles conseguirem, a seu modo, resolverem estas questões.

Segundo Catharina, “ele melhorou muito mesmo, não está mais roendo as unhas, está bem na escola, está menos agressivo, menos ansioso, mas ele me pediu, que queria muito continuar contigo, ele te adora (…)“. Com esta última tentativa de sedução de Catharina, afirmo-lhe que a minha indicação é que seria interessante eles resolverem estas questões, em relação ao Nicolau ir ou não morar com o pai e/ou seguir morando com ela. Era importante que eles estabelecessem laços, nos quais a autoridade fosse bem definida e exercida, e que certas questões deveriam ser trabalhadas por ela. Ressalto a necessidade de ela começar um tratamento psicológico. Esta foi minha indicação naquele momento. Catharina concordou.

Resultados do Teste das Fábulas

A partir do levantamento dos resultados do Teste Projetivo das Fábulas, o que podemos observar é que Nicolau está em uma situação em que seu estado emocional manifesta-se de forma depressiva e triste se sobressaindo também à manifestação de medo. não possam ser bem expressadas em relação aos pais, que ilustram as histórias. No entanto, nas respostas de Nicolau, fica evidente um empobrecimento simbólico, pois ele responde sem conseguir deslizar muito entre seus significantes, mantendo-se colado a um discurso que pouco deixa escapar. Mas neste pouco que deixa escapar, abre-se o caminho para uma possível intervenção nessa rede familiar que se mostra entrelaçada as fantasias que se manifestam sob forma de angústia em Nicolau.

 

Discussão do caso clínico

No transcorrer dos atendimentos clínicos com Nicolau, foram se desenrolando os nós em que o mesmo se encontrava e que também se encontravam os sujeitos que o rodeavam. Já nas primeiras entrevistas, ficou claro que o conflito da trama edípica não se desfez. O que aparece como manifestação de angústia em Nicolau apresenta-se como uma tentativa de denunciar o Outro (função materna exercida pela avó) pelo medo aterrorizante em ficar sozinho. O desejo mortífero da avó não permitia que ele se descolasse (Zornig, 2008). Nicolau expressa, através de seus sintomas, não conseguir se descolar da avó para mais nada. Os medos manifestados, de ficar sozinho em qualquer peça da casa, a agressividade, roer as unhas até sangrar, possuem relação com as fantasias inconscientes de Catharina.

Supomos, através do tratamento e do Teste Projetivo das Fábulas que a representação de Nicolau de suas figuras parentais era de insegurança e fragilidade. A representação da função materna (exercida pela avó) era de uma figura sufocante de seu desejo, representando uma alienação patológica e engolfadora. A representação paterna de Nicolau era manifestada através de sua angústia de se separar das demandas da avó. Nicolau fazia suplência ao pai, o que aparece no tratamento e também no Teste das Fábulas. A representação do pai é de ausente e que falhou em sua função de terceiro.

O pai, então, apresenta-se como falho em sua função de agente da castração simbólica. Com isso, deixa o filho à deriva dos caprichos da função materna e em uma lei que funciona conforme o desejo da avó e não como estruturante e organizadora da relação entre os membros da família. Este pai não cumpre de maneira satisfatória sua função de terceiro, de interdito, deixando Nicolau preso na díade com a avó, sem conseguir desprender-se. No entanto, o pai, excluído da trama familiar, mas não totalmente apagado no discurso, exerceu sua função simbólica inicial; senão, estaríamos relatando um caso de psicose. A mãe de Nicolau tenta minimamente entrar nessa díade avó-neto, mas não consegue. Para conseguir sobrevir como sujeito desejante, “deu de presente” o filho para a sua mãe suprir uma falta, recusando a castração, tornando-a e mantendo-a completa (Zornig, 2008).

Entretanto, na última sessão, através do discurso de Catharina, podemos perceber que Rose assume sua função ao deixar a avó de fora da reunião do conselho na escola. Isso acaba fazendo uma função de lei, que se sobrepõe, freando a avó. Rose, então, assume um importante papel do qual ela estava afastada, isto é, assume sua função de mãe, barrando as demandas desenfreadas de Catharina. Além disso, pela primeira vez, Nicolau posiciona-se frente à avó, afirmando que a origem da agressão partira dela. Trazer esta questão para o domínio público, inserir a função de lei através da mãe e inaugurar a escola como um agente de reconhecimento do lugar de Nicolau, foram situações importantes de desvelamento do nó familiar. De certa forma, apontou que a manutenção deste nó estava extremamente ligada à Catharina, que lutava para que o enodamento não fosse desfeito.

Observamos, então, que o sintoma de Nicolau se enlaça na dinâmica parental em que ele se encontra, ocupando a posição de objeto do desejo do Outro, nublando com seu sintoma as questões relativas à avó como sujeito, isto é, a necessidade da avó de se enfrentar como sujeito incompleto, impossibilitada de recuperar o objeto de desejo perdido e suprindo sua falta através de Nicolau. Surgem, assim, as fantasias de Catharina para com Nicolau, tais como o medo de deixá-lo sozinho e a possibilidade de que se repetisse com o menino o que acontecera com sua irmã e com sua neta. A violência de seu passado se faz presente refletida em seus medos projetados no menino, fazendo-a abraçar e proteger Nicolau de maneira sufocante, deixando-o à deriva do enclausuramento, sobrevindo em Nicolau as crises de angústia para alarmar o lugar do desejo. A proteção de Catharina mata e sufoca o desejo do menino, além de se expressar sua própria agressão para com Nicolau.

Ao mesmo tempo, a escuta se fez também para com a rigidez desses lugares em que estavam posicionados os sujeitos dessa relação. Catharina não deixava ninguém entrar em sua relação com o Nicolau: a mãe é menos importante que ela, o pai está bem onde está e seu namorado não pode entrar em sua casa por causa de Nicolau. A demanda inicial deixa em aberto a possibilidade de Nicolau não se separar nem se deslocar da posição na qual se encontrava. Na queixa inicial apresentada, nos deparamos com um menino que estava amarrado na relação narcísica da avó. Seu sintoma denunciava a posição na qual ele se encontrava inserido nessa trama. Com isso, ele se agarrava à avó, em todos os lugares da casa, não suportava seu corpo separado do dela, bastando-lhe essa relação especular. Porém, no decorrer dos atendimentos, surge o desejo de Nicolau de se desgrudar, se descolar, sair dessa posição mortífera, sobressair-se como sujeito de seu próprio desejo (Zornig, 2008).

Ao funcionar como um elemento terceiro, que se interpõe entre Nicolau e Catharina, o tratamento proporciona que o menino se questione sobre quem deve escolher suas atividades e quais atividades, quem deve ter amigos e quais amigos. Como terapeuta, fico, algumas vezes, como “causadora” do agravamento do sintoma, justamente quando Nicolau começa a se desprender. Meu lugar de terapeuta neste processo se faz valer no momento da determinação de a avó não entrar na sessão, para que, assim, pudesse ser delimitado um espaço. Em consequência, a avó fica de fora, e mantém uma relação ambígua de amor e ódio comigo, evidenciada pelo discurso de ora apresentar o menino como me adorando, ora piorando nos sintomas; ora querendo ir ver o pai, mas tendo que implorar para que isso aconteça. Ao mesmo tempo em que é vista como protetora da integridade de Nicolau, a avó também é vista como um risco que ameaça o gozo sintomático de Nicolau fixado no lugar de objeto.

Nicolau veio substituir o marido “perdido” de Catharina, e novamente o significante “perda” aparece entrelaçado na trama dessa família. Rose “dá o filho de presente” para a mãe superar sua perda. É da perda que se trata. Exemplo disso ocorre, quando, nas sessões, através dos jogos, aparecem o medo e a angústia do menino em perder nos jogos, o medo de ficar sozinho, indicando que não consegue se descolar e perder as pessoas. A avó o ganhou, pois perdeu. Perdeu o marido e ganhou outro de presente. Assim, Nicolau implora para se descolar através de sua angústia, e tenta se desprender mesmo que minimamente. Com isso, ao colocar o neto no lugar privilegiado de objeto amoroso (ele é tudo pra mim, meu amor, minha vida) Catharina desloca para ele um desejo sexual que deveria ser direcionado a outro adulto que pudesse responder-lhe pela linguagem da paixão e não inserir em Nicolau significantes obscuros, aos quais ele precisa responder através de seu sintoma. A questão trazida para os atendimentos pela avó e pela mãe de Nicolau apresenta seu lado opaco relacionado ao inconsciente dessas mulheres, ligados à implicação no sintoma do menino. Ao mesmo tempo, ele procura responder à demanda que lhe é solicitada, através de seus sintomas, construindo por meio dessa fantasmática, uma neurose infantil (Zornig, 2008).

No caso do Nicolau, através do tratamento, se fez valer a função terceira na relação mortífera entre avó e neto. Com isso, pode-se questionar a posição em que se encontravam os sujeitos na trama familiar e como o sintoma e as manifestações de angústia sustentavam os lugares. A entrada da função paterna foi essencial para o desenrolar do tratamento, mostrando possibilidades a Nicolau, não só de desejo, mas de sustentação do mesmo, podendo ele sair da posição de objeto (mesmo com a resistência da avó) para a de sujeito desejante.

 

Considerações finais

A análise do caso clínico permitiu identificar que as manifestações de angústia estavam associadas às questões da configuração familiar que colocavam Nicolau em uma posição de dependência da função materna (exercida pela avó) e, portanto, o sintoma indicava o esforço de romper com esta posição. Assim, a representação da função materna ligava-se a um lugar de alienação patológica, que colocava Nicolau em uma posição de não desejo e de não existência. O gradual envolvimento da função paterna permitiu a consolidação da posição edípica e a diminuição da sintomatologia clínica. Supomos, através dos atendimentos e do Teste Projetivo das Fábulas, que a representação que Nicolau tinha de sua figura materna (avó) era de uma figura sufocante que o colocava a mercê de suas demandas e seus desejos, ficando alienado no lugar de objeto. A representação parental de Nicolau era de figuras que abandonam, e do pai em específico, como ausente, para o qual o menino fazia suplência como um elemento terceiro.

Considerando o objetivo de compreender os processos psíquicos relacionados às manifestações de angústia na criança, associados à trama familiar, e a representação que a mesma possui de suas figuras parentais, a partir do tratamento, evidenciamos a rede de significantes em que o paciente estava inserido. Foi possível identificar que, através de seu sintoma, Nicolau denunciava o lugar em que estava situado na estrutura familiar, ou seja, o menino ocupava a posição de objeto do Outro, objeto de amor. Concluíamos, por conseguinte, que o sintoma que era expresso pelas manifestações de angústia e medo demonstrava a insegurança do paciente por ainda estar alienado ao desejo do Outro, não conseguindo simbolizar a presença e a ausência. Com a entrada da função terceira em cena, houve a possibilidade de o sujeito advir como sujeito de desejo. No caso do paciente Nicolau, essa possibilidade se sobressaiu, pois obtivemos um prognóstico bom, na medida em que ele teve a oportunidade de se fazer sujeito de sua própria história.

Entretanto, podemos observar a complexidade da clínica infantil que engloba toda uma rede familiar na qual a criança encontra-se inserida, alertando-nos para a necessidade de um atento olhar clínico e singular diante dessas questões. Apontamos as limitações desse estudo, por ser um estudo de caso único, mas ressaltamos a importância de cada caso ser um caso de escuta singular da criança na clínica psicanalítica inserida em sua trama familiar, indicando as funções parentais como fundamentais na constituição psíquica do sujeito. A dificuldade da clínica psicanalítica com crianças descortina a grande implicação do psicoterapeuta no tratamento, pois a criança, diferentemente do adulto, não se expressa (somente) pela fala livre. O terapeuta deve ter a implicação de escutar a criança e também estar aberto às demandas e fantasias parentais, sendo de grande importância para a condução do tratamento de orientação psicanalítica infantil e na implicação do sintoma.

Com o caso clínico apresentado, abriu-se a possibilidade de novos estudos com o foco na relação e vínculo inicial entre cuidador e criança, no que diz respeito ao gozo do cuidador que sustenta a criança no lugar de objeto. Sugerem-se mais pesquisas focando o sintoma da criança relacionado à trama familiar, pois a criança, através do sintoma, expressa que alguma coisa não está bem, e os pais, exercendo ou não suas funções, podem ter implicação no sintoma e devem se comprometer para com o tratamento.

 

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Endereço para contato
E-mailpsicojzb@hotmail.com

 

Juliana Zinelli Bolsson é psicóloga, mestranda em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), especialista em Atendimento Clínico com Ênfase em Psicanálise pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Silvia Pereira da Cruz Benetti é psicóloga, doutora em Child and Family Studies pela Syracuse University, mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professora adjunto no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).
1 Entendemos por representação, a representação-coisa, descrita por Freud. Há dois níveis de representações, isto é, a representação-coisa e a representação-palavra. A primeira compreende o sistema inconsciente e “seria considerada pela criança como equivalente do objeto percebido e investida na sua ausência” (p.449). Ao contrário da segunda, “que caracteriza o sistema pré-consciente – consciente” (p.450) (Laplanche & Pontalis, 2001, p.449-450).
2 A neurose de angústia se refere a uma acumulação de tensão sexual causada pela abstinência ou excitação sexual não consumada. Não possui mecanismo psíquico (Freud, 1895/1996).
3 O recalque pretende manter no inconsciente todas as ideias e representações ligadas às pulsões, cuja realização, produtora de prazer, afeta o equilíbrio do funcionamento psíquico do sujeito, transformando-se em fonte de desprazer (Roudinesco & Plon, 1998, p.647-649).
4 Os nomes dos participantes foram modificados com fins de preservação da identidade.
5 O que se encontra em itálico no texto refere-se à fala literal dos sujeitos.

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Casos Clínicos

Uma análise existencialista para um caso clínico de transtorno obsessivo compulsivo

RESUMO

O presente relato de experiência se refere ao desvelamento do Projeto de Ser de uma mulher de 35 anos, que apresenta um quadro de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), experienciado pela mesma como um evento ahistórico, singular, desconectado de uma possível construção com o social, e entendendo-o como de sua única responsabilidade. Sendo histórico, dialético e social, o homem sartreano deve ser compreendido em toda trama de sua existência, assim, os pensamentos obsessivos e os comportamentos compulsivos, apresentados pela cliente, apesar de poderem ser identificados tais como descritos no DMS IV, anunciam uma existência inundada pela vivência contraditória entre o Ser-para-si e o Ser-para-o-outro. A estrutura deste relato busca seguir a metodologia para a compreensão terapêutica do Projeto de Ser da cliente, segundo a Psicologia Clínica de base sartreana, a qual engendra o caminho de conscientização sobre os fundamentos e nexos das ações do sujeito, favorecendo reflexões sobre os fatores que constituem seu Projeto de Ser, e assim sua apropriação pelo mesmo.

Introdução

Apesar de o título deste artigo colocar em relevo uma nomenclatura referente a um quadro nosológico (DSM IV e CID-10), a análise compreensiva do caso clínico não se fecha nos sintomas que configuram o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Esta nomenclatura serve mais como uma provocação para mostrar como é fácil reduzirmos nosso olhar à existência de uma pessoa, por meio de uma classificação diagnóstica.

Em nosso empreendimento, o sujeito será compreendido em sua totalidade, sendo a unidade nosológica integrada a toda dimensão da existência deste, que também se constitui pelo quadro sadio. A análise terá como base a Psicanálise Existencial sartreana, tal como propõe Schneider (2002; 2011).

O destaque dado ao quadro nosológico, objetivou também evidenciar o momento em que a cliente procurou a terapia. Schneider (2011, p. 190) coloca, tendo como base o argumento de Jaspers (1979), que:

[…] a questão psicopatológica fundamental é o desenvolvimento de uma personalidade, horizonte em que ela deve ser compreendida. Pode ocorrer que certa sintomatologia, a princípio específica, vá aos poucos se apoderando da existência inteira e acorrentando a personalidade.

Sendo assim, ao encontrar-me com Sol2 pela primeira vez, percebi sua existência inundada pelos pensamentos obsessivos e ações compulsivas, mas apesar deste destaque, também mostrava questionamentos que denunciavam senso crítico sobre sua situação.

Os pensamentos obsessivos e os comportamentos compulsivos, como todos os outros atos do sujeito, devem ser visados em suas finalidades e não como uma soma de manifestações. Em cada ato há o fundamento da inteireza do sujeito. Conhecendo como transcende a tensão entre mundo concreto e o simbólico, uma vez que homem e mundo se dialogam fazendo-se mutuamente, é que podemos chegar a seu projeto fundamental. Em cada síntese sua história singular e a da humanidade são construídas.

É pelo método sartreano que proponho compartilhar com o leitor mais uma maneira de investigar, compreender e elucidar o mundo de uma pessoa cujo projeto de ser foi construído sob os fundamentos das relações dualistas entre o certo e errado e do perfeito e imperfeito. E na vivência do conflito entre o que deve ser e o que é, mostra algumas ações impregnadas pela preocupação com a necessidade de convencer-se de que seu Ser corresponde ao ideal imposto na infância e, diante a experiência duvidosa sobre a veracidade do mesmo, compele-se a agir de maneira a aliviar a angústia da possibilidade de não Ser, com isso desenvolve comportamentos identificados como Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).

Entre o Ser conforme os modelos apreendidos e o que é, o sujeito se perde na contradição contida nas informações interiorizadas: deve ser não sendo o que é. Não conseguindo ser o que não é, confirma o ser não perfeito, mas experiencia essa vivência sob o manto da culpa.

Para melhor compreender a metodologia utilizada para a realização da análise do caso em questão, situarei brevemente o método sartreano para investigação da realidade humana, como já coloquei anteriormente, conforme elucidado por Schneider (2002; 2011).

 

Em Busca da Compreensão do Projeto de Ser

O projeto de Sartre (1943/1999; 1960/2002), no desvelamento do empreendimento humano, transcendeu os três principais pensadores que deram base para sua teoria: (1) O Eu transcendente de Husserl (1901/1988) perde o sentido, haja vista que para Sartre, a consciência é “desprovida de conteúdos formais e materiais” (Cahet, 2008, p. 04), inclusive de um Eu. Sendo este constituído pelo ato reflexivo, o Eu sartreano reside no mundo, logo é um Eu transcendido. Somente pela consciência da sua criação de seu Eu, na relação com o mundo, que o homem pode assumir a responsabilidade pelas suas escolhas, pelo seu Projeto de Ser; (2) a busca pela compreensão do Ser ontológico heideggeriano, para Sartre deve ser focada no Para-si e suas condutas, construído pela relação dialética entre subjetividade e objetividade e; (3) na proposta marxista de conhecer o homem concreto que transforma o mundo. Sartre ao invés de “[…] descrever a realidade a partir de categorias universais (economia, modo de produção, classe social)” (Schneider, 2002, p. 118), resgata o indivíduo na relação com o coletivo. A concretude da existência individual e social se dá, para Sartre, através da interdependência do diálogo entre ambos.

Através dessas e outras superações, o homem sartreano possui características de um Ser histórico, dialético e também social, visto que a singularidade não se opõe à coletividade e vice versa. Cada ato do sujeito circunscreve os contextos familiar, social, cultural, econômico, político, intelectual, bem como a história da humanidade é construída através de cada escolha singular que tece com todas as outras a trama do universal. Assim, através de sua antropologia podemos compreender a práxis que tem em seu bojo a conversão do processo existencial e do histórico.

Quiçá, por uma concepção dicotomizada do indivíduo e do coletivo, corroborada também pelas teorias sociais que se opõem a concepção de indivíduo das teorias psicológicas, por sua vez construídas sob a influência da atmosfera liberalista e neoliberalista, é que ainda esbarramos na incompreensão do Ser dialético. Mas mesmo assim, realizando uma leitura dialética, neste próprio movimento de oposição, a verdade construída por uma parte dependeu da verdade já construída historicamente pela outra, como ponto de referência para a refutação.

Ao descartarmos a compreensão dialética, negamos o diálogo entre o homem e o mundo, bem como contribuímos com o impedimento de uma das atitudes, que podemos considerar como um dos pilares da teoria sartreana: o assumir a responsabilidade por nossas escolhas.

Sendo a consciência sempre intencional (de e para alguma coisa), todos os nossos atos são livres, solitários e a nós cabe responder por eles. A liberdade de nossas escolhas e consequentes ações nelas fundamentadas,

[…] por mais alienada que seja[m], sempre transforma[m] o mundo. Isto porque o que caracteriza o homem é a sua transcendência, pois ele ‘sempre faz alguma coisa daquilo que fizeram dele’, mesmo que ele não se reconheça na sua ação. Ainda que alienados, somos sujeitos de nossa história. Essa transcendência, que faz o sujeito ir além daquilo que lhe é determinado pela materialidade, pela sociedade, é o que Sartre denomina de projeto [grifos da autora] (Schneider, 2002, p. 120).

Resumindo: as verdades são os projetos singulares/ universais construídas no percurso histórico da humanidade, através das relações dialéticas estabelecidas entre indivíduo/mundo, indivíduo/coletividade, subjetividade/ objetividade. São criadas a partir da liberdade da ação individual que, ao se apropriar das diversas verdades objetivas do mundo, escolhe assimila-las, sufocar-se nelas ou rejeita-las (Schneider, 2002).

Para compreender o projeto de Ser de uma pessoa, temos que considerar as condições reais que circundam sua existência concreta, situada e definida durante toda sua história, através de contextos objetivos que podem oferecer-lhe possibilidades e limitações. Por sua vez, os obstáculos e facilidades, também assim serão significados de acordo com o projeto de Ser.

Sartre (1960/2002) propõe o método progressivo-regressivo para se realizar a compreensão do projeto de Ser de uma pessoa. Um método heurístico que permite, progressivamente, nos aproximar da história do sujeito. Partindo de suas experiências, tomamos uma atitude compreensiva para perceber o sentido dado por ele a cada um de seus atos. Comparando as unidades de sentido entre estes, chegamos ao seu projeto fundamental.

Tal método se faz importante, já que:

[…] o homem deve ser encontrado inteiro em todas as suas manifestações. O modo de vida, os trajes, a postura política e moral, a fala, etc, remetem sempre ao projeto do indivíduo, que, como vimos, é fruto das condições materiais, sociais históricas em que ele está inscrito (objetivo) e da sua apropriação ativa por parte do sujeito (subjetivo). A compreensão da realidade humana passa, portanto, pelo movimento dialético de compreensão entre o objetivo e o subjetivo (Schneider, 2002, p. 121).

Diante o exposto, os diagnósticos psiquiátricos tradicionais recortam a existência do indivíduo. Sendo definidos a partir de alguns comportamentos que expressam a leitura da média abstraída de um coletivo, desconsidera a minoria excluída dessa média, bem como a singularidade no diálogo com o mesmo. Reduzir ao diagnóstico a compreensão do projeto de Ser, é desconsiderar a construção dialética, histórica e social do sujeito. É restringir o processo existencial, tornando-o estanque. Mesmo que o diagnóstico nos seja útil para entendermos alguns comportamentos à luz da teoria, ele (diagnóstico) por si, nunca refletirá o sentido dado pelo sujeito à sua existência.

Buscarei a seguir, apresentar a biografia de Sol, uma vez que, segundo Schneider, as biografias possibilitam

[…] a compreensão rigorosa do ser dos seus biografados, […] devem expor um homem enquanto totalizações, e não como um conjunto fragmentário de comportamentos, emoções, desejos […], colocam o sujeito concreto, através de um movimento de compreensão, no qual busca esclarecer as condições epocais, culturais, sociais, familiares, além das subjetivas, psicológicas, que possibilitam a seu biografado chegar a ser quem ele foi e como chegou a sê-lo, não abrindo mão do movimento, constante da análise empreendida, entre sujeito e a objetividade, movimento dialético este produtor do psíquico [grifos da autora] (Schneider, 2011, pp. 234-235).

Sendo assim, estruturada de acordo com o objetivo da Psicanálise Existencial sartreana, através da biografia de Sol, buscarei mostrar “o nexo existente entre os diversos comportamentos, gostos, gestos, emoções, raciocínio do sujeito concreto, ao extrair o significado que salta de cada um desses aspectos em direção a um fim” (Schneider, 2011, p. 233). Para tal feito, é necessário lançar mão do método comparativo ao buscar os nexos existentes entre esses aspectos de um indivíduo em situação e com o método compreensivo ou sintético chegar “à intuição do psíquico, atingida por dentro” (Jaspers, 1979 apud Schneider, 2011, p. 234), e assim elucidar o Projeto fundamental que dá sentido ao conjunto.

No entanto, por uma questão didática, apresentarei a biografia, num primeiro momento, descrita “por fora” (ibdem, p. 235), de maneira narrativa, para depois apresentála através de uma análise compreensiva da relação dialética que Sol trava com a objetividade, tal como proposto por Sartre (1997) em sua Psicanálise Existencial.

 

Apresentando (estaticamente) Sol

Sol é uma mulher de 35 anos, casada há quatro, com nível superior, sem filhos. Mostra investimento em sua aparência. É uma mulher cuidadosa com seu corpo, aparentando menos idade do que tem. Usa roupas e acessórios descontraídos que acompanham a moda. Trabalha em uma lanchonete como vendedora.

Filha do meio de uma família católica praticante, classe média alta. Os pais estão aposentados. Todos os irmãos, o marido e o pai possuem nível superior. O pai sempre supriu financeiramente as necessidades e desejos da família. Apóia a educação dos filhos em uma moral tradicional. Morou longe dos pais enquanto fez faculdade e depois que se casou.

 

1º Momento: Demarcando o fenômeno (o Psicodiagnóstico)

Neste instante, buscaremos delimitar o fenômeno de acordo com a sua atualidade, uma vez que, de acordo com Schneider (2011, p. 270), “no caso da clínica, a definição clara da sintomatologia e do quadro psicopatológico do paciente, ou seja, a elaboração do psicodiagnóstico […] é que definirá os rumos da intervenção”.

 

Na Primeira Sessão

Esta ocorreu em dezembro de 2010. Sol relatou que há dois anos começou a ter pensamentos constantes de que poderia fazer mal às pessoas e de que poderia contaminar os objetos. Após conversar com alguém, ou mesmo, somente ao olhá-las, se angustiava por pensar que poderia ter falado ou feito alguma coisa que lhe causasse algum mal. Diante este tipo de pensamento obsessivo, tirava a dúvida com marido ou, se possível com a própria pessoa, mas “não sossegava enquanto não perguntava a alguém sobre as consequências de suas ações3.

Quanto aos pensamentos de possível contaminação, como trabalha lidando com comida, lavava constantemente as mãos, abria a torneira com o braço e tocava na tampa do lixo somente com luvas “para não contaminar os objetos e a comida”, e assim poder prejudicar alguém. A preocupação obsessiva com o ter feito alguma coisa errada, também se dava, por exemplo, em ter colocado alguma coisa na comida que servia.

Além destes comportamentos, também pensava que poderia ter deixado alguma coisa ligada, acessa ou aberta em casa e no trabalho, fazendo diversas vezes o ritual de verificação.

Por isso, sua vida social estava muito pobre, tinha medo de sair porque “no dia seguinte fica pensando no mal que pode ter feito a alguém”. Alegou apresentar muito sono, dormindo quando “não tinha que realizar suas obrigações”. Neste momento mencionou que achava estar com Transtorno do Pânico, justificando seu suposto diagnóstico devido a sua ansiedade e ao medo de sair de casa.

Relatou que tinha uma coisa ruim dentro de si (colocando a mão no peito), que “queria arrancar isso”, não sabendo definir o que era. Intuí que Sol estava falando da vivência da angústia, mas pensei também que, como nunca deve ter se permitido refletir sobre tal vivência, desconhecia do que se tratava.

Queixou-se que depois que casou o dinheiro ficou escasso, limitando suas possibilidades. Sente-se sozinha quando está em casa, pois está longe da família, o marido trabalha e estuda o dia todo.

Devido aos comportamentos obsessivo-compulsivos, identificados como clássicos de quem apresenta TOC, segundo sua descrição dos mesmos e, principalmente porque percebi a dificuldade de escuta devido sua ansiedade, solicitei que procurasse um médico homeopata de minha confiança que, por ser flexível em sua atuação profissional, poderia diagnosticar a necessidade de intervenção medicamentosa e o tipo (alopático ou homeopático) e/ou de outro tipo de encaminhamento médico. Este, após consultar Sol, prescreveu Lexapro4, iniciando, em janeiro de 2011, com um comprimido ao dia.

 

Em Algumas Sessões Seguintes: Contando Sua História…

A Infância

Ao solicitar-lhe para contar sua história, desde sua infância, Sol a inicia lembrando de uma fala de sua mãe:

[…] ela disse que quando eu era bebê, chorava muito. Por não saberem o motivo, meus pais me levavam aos médicos e benzedeiras, mas nenhum conseguiu encontrar uma explicação. Eu não ficava com outra pessoa sem ser eles. Diante essa experiência, minha mãe dizia que Deus a livrasse de ter outro filho. Isso me faz sentir uma pessoa problemática para meus pais, como um patinho feio da família”.

Quando terminou a licença maternidade, a mãe retornou ao seu trabalho. O pai trabalhava durante o dia e fazia faculdade no período noturno, em uma cidade próxima, ficando Sol e seu irmão aos cuidados de uma empregada “que gostava muito. Era como uma segunda mãe, pois cuidava da gente e morava também conosco”. Nos finais de semana “adorava ir dormir na casa da empregada e dos meus avós paternos, mesmo sabendo que tinha a oportunidade de ficar com meus pais”.

Quando começou ir à escola, chorava muito. O pai tinha que ficar com ela esperando que entrasse. Disse não gostar muito de estudar e “não entender porque chorava”.

No que tange às brincadeiras, preferia brincar na rua, subir nas árvores, dançar “em cima da mesa”. Não gostava de brincar com bonecas, ou de qualquer brincadeira “monótona”. Preferia aquelas que lhe fizessem “sentir-se em liberdade. Nunca fui uma pessoa caseira, desde pequena adorava liberdade”. Gostava também de nadar, de andar de carrinho de rolimã. Brincava mais com seu irmão do que com a irmã. Considera que esta era protegida pelo pai. “Hoje dizem que sou muito ciumenta, mas não tive a proteção dele. Tudo que faço, para eles é errado, isso me frustra muito…”.

Com relação às tarefas que exigiam maior disciplina: estudou piano até os seis anos, fez pintura em pano e estudou balé durante dois anos, pois “minha mãe era contra eu fazer balé, em função dos gastos que se tinha com as festividades no final do ano”.

Em suas relações de amizade, nunca foi de ter muitos amigos, preferindo brincar mais sozinha. Mencionou que em brincadeiras em grupos, sempre tinha um “líder que queria ser o melhor, isso me irritava muito! Eu era muito briguenta e tinha dificuldade em ceder. Dois bicudos não se beijam”. Os pais a comparavam com o irmão que tinha muitos amigos. Quando ia para festinhas em casa de amigos, sentia-se o “patinho feio”, pois ninguém a tirava para dançar.

Apesar de se perceber “mulecona” durante a infância, mencionou a vaidade com sua aparência, desde pequena. Usava roupas de adulto, brincos grandes, gostava de ler revista de moda. Inspirava-se nas tias mais novas, desejando logo crescer para poder se vestir como adulto, sem as críticas da mãe, que não a deixava usar este tipo de vestimenta e acessórios por ser nova.

Nunca foi aluna exemplar, chegando a reprovar de série, mas seus pais “tinham noção de que não tinha condição de ir prá frente. Sabiam que não gostava de estudar.” A mãe a castigava, não deixando fazer as coisas que gostava como ir ao clube e nadar.

A Juventude

Aos dez anos mudou-se para outra cidade. Para Sol tudo era novidade, considerando “uma época muito boa”. Aos 15 anos começou a sair à noite com amigos, tendo que voltar mais cedo que esses devido ao horário estabelecido pelos pais, uma vez que para eles “tudo tem o seu tempo”. Não entendia o real motivo do limite dado, porque “nada de errado faria”.

Começou a sair com o irmão e seus amigos, e “se achava” sendo amiga dos amigos de seu irmão. Por vezes dizia que ia dormir na casa de uma amiga para estudar, mas saía para “as baladas”. Expressou de maneira saudosista: “Que época boa que não volta mais!”.

A Adultez

Na época que fez o cursinho “só tinha o interesse em festar”. Mencionou que, de sua turma, ninguém passou no vestibular. Estava ansiosa para se mudar para a outra cidade onde faria mais um ano de cursinho e prestaria o vestibular novamente. Justifica por assim sair das vistas dos pais e ter sua liberdade.

Como seu intuito era sair com amigos, sem compromissos sérios, começou a namorar somente aos 20 anos com um rapaz que a “fazia meio de boba”, pois como tinha que retornar cedo para casa, ele voltava “às baladas depois que me deixava em casa”. Aos sábados a preteria em função do jogo de futebol com amigos. Com a mãe do namorado tinha uma boa ligação, sendo cúmplices por esta também não aceitar as atitudes do filho e torcer pelo namoro. Terminaram quando Sol mudou-se para a cidade que faria o cursinho. Atualmente são amigos.

Na nova cidade estudava e festava, “uma nova experiência de vida, sem pai e mãe para encher o saco. Saía e não tinha hora para voltar”. Após um ano de faculdade conheceu seu atual marido. Diz ter sido “amor à primeira vista” e sempre achou que seria com ele que iria se casar. “Sempre gostei dele”. Naquela época ficavam juntos esporadicamente, pois ele “nada queria comigo, só queria festar”.

Arrumou um namorado que “era meu oposto, não gostava de festar, era estudioso, bonzinho, meus pais o amavam”, mas Sol não. Sente que se acomodou no namoro, intuindo ser porque a família gostava dele.

Durante a faculdade “festava muito… curtia muito… Foram dois anos de festa, festa, festa, resultado: reprovei! Como estava namorando e tinha que estudar, dei uma parada com as festas”. No último ano da faculdade voltou a “festar”, mas o namorado não gostava, “ele tirava o telefone do gancho, me proibia de sair. Uma amiga que morava comigo falava que eu era doida…”. Terminou depois de um tempo que retornou à casa dos pais.

Namorou outro rapaz que os pais não aceitaram, “eu tinha que pagar tudo pra ele, emprestar-lhe dinheiro. Ele me fazia de tonta, apesar de gostar ainda dele. Acho que queria ajudá-lo”. Ele terminou com ela quando arrumou outra namorada. Com o tempo “fui enxergando quem ele era”.

Após se formar, o pai não quis que trabalhasse, mas que fizesse um estágio. Assim o fez e recebia uma mesada “gorda” do pai. Ficou um tempo sem namorar, até quando o seu antigo amor à primeira vista ligou. Conversaram pelo telefone por umas três vezes durante um mês e resolveram se casar neste ínterim. “Meus pais sabiam que sempre gostei dele”, mas ficaram receosos, uma vez que para casar teria que se mudar para a cidade dele. O atual marido, na época ligou para os pais justificando suas reais intenções com o casamento. Os pais conversaram com os pais dele para se certificarem. Como seus pais nunca aceitaram que fossem morar junto, tiveram que se casar formalmente. Sol conheceu os sogros uma semana antes do casamento e o marido, os pais de Sol, cinco dias antes.

Mencionou nunca ter se arrependido dessa decisão, pois disse que sempre gostou dele. Os pais não acreditavam que poderia dar certo. Para estes, Sol tinha tudo em casa e a mudança seria radical. Atualmente:

“[…] meus pais amam meu marido. Minha mãe tratava bem o namorado da minha irmã e passou a tratar da mesma maneira meu marido. Ela não tem meio termo, gosta ou não gosta. A maneira como ela trata as pessoas é o parâmetro para saber se gosta ou não. Ela não faz questão de agradar, mas quando gosta faz de tudo!”

Casou-se, gosta do marido, “ele é uma ótima pessoa”, dá o respaldo financeiro, mas não como os pais. Ele acredita que ela pode fazer várias coisas sozinha, sem depender dele. No início teve dificuldades porque não conseguia trabalhar na sua área. Disse não ter nascido para fazer serviços domésticos. No 1º ano de casada fez curso de inglês, mas estava sem dinheiro. Não conseguindo serviço em sua área, foi trabalhar em uma franquia de comida. “O primeiro dia foi a morte. Tendo diploma superior, estava eu ali servindo as pessoas”.

Este foi seu primeiro trabalho depois de casada, em cujo ambiente de trabalho, sentia-se todo o momento controlada, por haver câmeras e qualquer suspeita de que os funcionários façam algo errado são chamados à atenção, correndo o risco de demissão.

Após alguns meses nessa empresa, Sol começa a desenvolver os pensamentos obsessivos de que estava fazendo alguma coisa errada e de que poderia prejudicar alguém, bem como os comportamentos relacionados ao excesso de limpeza e verificação exagerada e repetitiva dos ambientes e de suas ações para com os outros.

Mencionou que a vida de casada sempre foi uma rotina, mas tem que acompanhar o marido. Na adolescência, os pais bancavam tudo e agora tem que correr atrás.

Há dois meses, já em psicoterapia, Sol foi demitida desse emprego, pela armadilha de ter seguido instruções de sua chefia superior que foram contra as normas da empresa. Tal atitude embasada no medo de colocar limites a tal instrução e ser demitida, não garantiu sua permanência no emprego, desprotegendo-a, quando os superiores descobriram a transgressão das normas.

Ao comunicar seus pais que fora demitida, ainda “tive que ouvir de minha mãe a pergunta sobre o que eu tinha feito de errado e que estava com vergonha de mim!”. Ficou alguns dias desempregada, e conseguiu emprego em outra lanchonete onde se encontra trabalhando até o momento.

Podemos observar, através do sucinto relato da história de Sol, que não há como não considerar que a mesma apresenta um quadro nosológico de TOC. No entanto, através deste quadro, Sol nos anuncia como lida com a contradição entre sua responsabilidade e o julgamento do outro, que a coloca em cheque. Através dos comportamentos obsessivo-compulsivos parece mostrar como vivencia a angustiante batalha entre as suas reais ações, como por exemplo, a de que não ter feito mal a alguém, ou mesmo ter apagado a luz e a dúvida sobre estas.

Experienciando o TOC como se fosse duas pessoas numa só, uma ré e a outra o juiz, podemos chegar a um psicodiagnóstico que descreve uma pessoa, no momento, tendo a sua existência absorvida por este conflito, mas que busca ansiosamente dar fim nesta batalha, só que, por não ter apropriado seu projeto de Ser, não sabe a quem entregará o troféu de vencedor: se ao réu ou ao juiz. Portanto, o projeto terapêutico engendra o caminho para que ambos saiam de cena, dando lugar a uma síntese em que a avaliação de seus atos seja balizada a partir de seu próprio crivo e não alienada em projetos alheios, ou seja, que se torne “sujeito de seu ser” (Schneider, 2011, p. 271).

Destarte, até que tal intento seja alcançado, veremos a seguir, “as variáveis fundamentais na constituição dos impasses psicológicos [de Sol], compreendidos no horizonte da sua personalidade” (ibdem, p. 270), ou seja, como Sol se sabe, a partir de sua dinâmica psicológica construída através do diálogo que trava com o mundo.

 

2º momento: Elaboração da Problemática – Possibilitando a Compreensão Terapêutica

2º momento: Elaboração da Problemática – Possibilitando a Compreensão Terapêutica O homem sartreano sendo corpo/consciência (emsi- para-si) é um homem em relação: “entre consciência e corpo, relação com o mundo que o cerca, relação com a exterioridade” (Schneider, 2011, p. 213). Como ser-no-mundo, sua intencionalidade está voltada sempre para o exterior. Assim, sua consciência estabelece relação com a materialidade. Nascemos num mundo já posto, que se nos apresenta com uma história dada e com condições materiais pré-existentes ao nosso nascimento.

Sol nasceu na metade da década de 70, no berço de uma família católica, com padrões rígidos de criação, os quais se confrontavam com um Zeitgeist5 de transição de valores culturais e econômicos. O Brasil, apesar de ainda estar sob a ditadura militar do então Presidente Ernesto Geisel, vivenciava o auge do movimento feminista, a eclosão dos movimentos musicais de rock in roll, do início da era Dancing Days, com o surgimento das discotecas e do movimento punk. Na moda as vestimentas e adereços aparecem com muitas cores e brilhos. A calça boca de sino, sapato plataforma, saltos altos e finos com meia lurex, ou seja, a moda Psicodélica foi de encontro a tudo que era tradicional. Para sobreviver a esse movimento de contracultura, os padrões das famílias tradicionais necessitavam enrijecer.

Quanto à condição financeira estável da família, poderia ser beneficiada também pelo período de crescimento econômico que o Brasil passava. Sol então, ao nascer e durante parte de sua infância, se deparou com uma exterioridade que mostrava um contexto de abertura democrática, mas no familiar, em contraponto, ocorria um recrudescimento dos padrões de educação.

Como toda relação do homem é dialética (interiorização do exterior e exteriorização do interior), Sol se apropriou da segurança financeira de maneira conflitante: se por um lado tinha a segurança financeira oferecida pelo pai, por outro se sentia culpada por depender deste, posto que as possibilidades dadas para usufruir o que desejava eram também colocadas com cobranças.

No tocante às regras impostas em sua criação, não via sentido em algumas, inclusive a de ter que sair das festas mais cedo que seus amigos. Sol se sentia culpada por poder fazer coisas erradas aos olhos dos pais, sem saber o fundamento deste prejulgamento.

O projeto dos pais com relação ao filho ideal foi exteriorizado por estes através de ações que Sol deveria desempenhar: estudar, fazer faculdade, estagiar após se formar ao invés de trabalhar, chegar mais cedo em casa, usar roupas adequadas para sua idade, ter amigos como seu irmão, namorar um rapaz com o perfil traçado pela família, enfim, tal projeto foi interiorizado por Sol como aquele que limitava sua espontaneidade, sendo assim, vivenciar suas escolhas sem julgamentos, somente longe dos pais. Prazer e diversão somente nesta última situação, porém, continuava financiada por eles. O prazer e as obrigações são entendidos por Sol de maneira dicotômica, sem haver um diálogo entre eles, somente na base financeira.

relação com o corpo, outra condição constitutiva da existência, faz-se importante mencionar. O corpo não deve ser entendido de maneira cartesiana, separado da consciência. Ambos integram-se6, totalizando o Ser. É por meio do corpo que mediamos nossa relação com o mundo.

Schneider (2011) menciona que Van Den Berg (1981) sustenta duas maneiras de o sujeito relacionar-se com o corpo: o corpo como ser-para-o-outro e o corpo que sou (corpo ser-para-si). No primeiro, o corpo é visto de fora, é o corpo alienado ao ponto de vista dos outros, é o corpo abstrato, e o segundo, o corpo concreto, aquele que vivencio enquanto espontaneidade por ser meu instrumento no mundo e meta de minhas ações.

A maneira como Sol fala de seu corpo, mostra-nos interiorizá-lo a partir do olhar do outro. Sentia-se gordinha e feia na infância, tendo como fundamento a crença de que os meninos não gostavam dela. Atualmente cuida de sua aparência, faz regime, pois ainda percebe seu corpo de maneira distorcida, sendo sempre mais avantajado do que é. No entanto, interessante compreender que em alguns comportamentos relacionados ao Toc, o corpo sujo é apropriado como o corpo ser-para-si.

relação que travamos com a temporalidade também deve ser visada. Sabemos que o existencialismo compreende que os acontecimentos históricos são criados num movimento do futuro para o passado, condição da consciência intencional projetar-se no futuro, ascender o passado e realizar as escolhas no presente, sintetizando assim, passado, presente e futuro. No entanto, essa temporalização real, antropológica nem sempre é experimentada desta maneira pelo sujeito. Este geralmente entende o passado como determinante de seu presente e futuro, tornando assim, uma temporalização aparente (Schneider, 2011).

Sol teve seu futuro praticamente delineado pela sua criação. Como deveria agir, ter e ser fora predefinido pelos projetos dos pais, contudo, não a estimularam a arriscar e aprender, do seu jeito e no seu tempo, o como fazer. Aprendeu que devia ser responsável no que faz, mas o futuro tornou-se ameaçador, ansiógeno, quando deve criar saídas, haja vista que, para Sol, no passado estas eram criadas por outro. Diante o nada do vazio, paralisa-se, dorme, tem preguiça, e assim age para recusar o risco. Da mesma maneira ansiógena lida com o pensamento de ter feito algum mal aos outros ou ter deixado algo por fazer e que pode trazer algum dano, na verdade, não ao outro, mas a ela. No caso do Toc, precisa assegurar-se, através do outro, que seu futuro não está ameaçado, quando lhe pergunta se fez algo de errado.

Só podemos nos conhecer através do outro. Assim a criação do nosso Eu perpassa antes o olhar alheio. Na suarelação com o outro, Sol o percebe como seu juiz, seu inferno. Sendo o outro quem define os caminhos a serem trilhados no percurso das obrigações e compromissos, tornou-se dependente desses para não correr risco, mas, paradoxalmente, os outros também são os que limitam sua liberdade relacionada ao prazer e diversão. Estabelece então, uma relação conflituosa com os outros: estes são interiorizados como protetores-castradores e não como limitadores-possibilitadores.

De acordo com a maneira como trava a relação com o outro, a sua com o TOC se dá fundamentada através de um Eu dividido. Vivencia um estranhamento com relação aos seus pensamentos sobre fazer mal a alguém. Apesar de ter os pensamentos obsessivos, sabe que não fez e que não fará mal se não quiser. O mesmo ocorre com os comportamentos de verificação dos ambientes, de lavar as mãos e de questionar as pessoas se a fez algum mal. Tem a compulsão, faz, mas sabe que não há necessidade.

Tal vivência pode ocorrer porque ter conhecimento de algo não significa ter consciência reflexiva de. O Eu só surge diante a consciência reflexiva, uma vez que somente ela posiciona o Eu no mundo, sendo assim, podemos desvelar o projeto de Ser de Sol, através de suas ações, as quais não mostram uma consciência reflexiva do Eu que, por sua vez, de maneira irreflexiva, se sabe sendo.

 

Desvelando o Projeto de Ser: o Eu Alienado

Conforme podemos compreender a dinâmica psicológica de Sol, esta por se saber sendo impotente, incapaz, limitada intelectualmente, medrosa, preguiçosa, feia, má, rejeitada, mas responsável: (1) projeta ser uma pessoa com segurança financeira, mas financiada pelo Outro (no caso atual, o marido); (2) por meio do trabalho busca ser reconhecida pela sua honestidade e responsabilidade, não suportando dúvidas sobre sua idoneidade; (3) idealiza ser amada como uma boa filha. Pela culpa em omitir seus erros e fracassos dos pais, dá satisfações de sua vida para eles, o que ratifica seu sentimento de rejeição quando eles a julgam e; (4) mantém o corpo sob excessivo cuidado (corpo abstrato) para ser bonita para o Outro. Mas, por estar magra, continua recebendo críticas.

Vemos aí um Projeto de Ser-para-o-outro, cujo Eu fracassado foi interiorizado pelo olhar do outro. Sem passar pelo seu senso crítico, a fim de poder escolher com mais reflexividade sobre o que criaram para ela, Sol aceitou e assentou este Eu. Mesmo que apresente em alguns de seus comportamentos uma tentativa de libertação deste, o faz com culpa, expondo-se e interiorizando as críticas, uma vez que a maneira como tenta se livrar deste fardo, não é de maneira transcendente, mas em oposição, aparecendo para o outro como um confronto que também o ameaça.

Diante esta compreensão, o trabalho com Sol foi encaminhado para que a mesma pudesse apropriar-se desse Eu que se sabe sendo, construído no modo como estabeleceu relação com a realidade. Sem a consciência reflexiva deste, impossível responsabilizar-se como também construtora do mesmo e assim poder redimensionar seu Ser.

Veremos a seguir como ocorreu este processo de redimensionamento até o momento.

 

Redimensionando o Projeto de Ser

Reflexão Espontânea ou Cúmplice

Como coloca Schneider (2002, p. 168):

Um homem escolhe-se em uma dada estrutura de escolha; a escolha não é, portanto, gratuita, determinada unicamente por seu desejo de sujeito, mas é uma escolha a partir das possibilidades que se lhe apresentam e frente às quais ele não pode deixar de escolher.

A estrutura de escolha com que Sol se deparou durante sua infância, foi a de uma criança que não correspondeu às expectativas do perfil de filha já desenhado pelos seus pais antes mesmo dela nascer. De uma maneira irreflexiva, que posiciona as coisas e pessoas no mundo, mas ainda não posicional do Eu (Sartre, 1965; Bertolino et al, 1998 citados por Schneider, 2002, p. 339), Sol reflete que os pais criaram para ela o projeto de filha perfeita, mas paradoxalmente, para atingirem o projeto de serem pais perfeitos, uma vez que para serem pais bons, precisam ter filhos problemáticos. “Meus pais me deixaram dependente, impotentes, limitada ao traçarem meus caminhos, buscarem solucionar meus problemas, me bancando financeiramente.

Colocou que sua educação foi direcionada para a obediência, o que gera passividade e infantilidade. Não a deixaram arriscar e assumir as consequências de suas escolhas, “até porque o que eu escolheria poderia ir contra os valores deles. Só que me criticam também por não arriscar. Parece não haver saída na relação com eles, ou sou do jeito que eles querem ou não tenho valor!”.

No tocante as suas relações amorosas, acredita que para seu pai nenhum homem seria tão bom para ela quanto ele, mas que atualmente conseguem aceitar seu marido e ver que este é bom. Até aqui Sol posiciona o Outro no mundo, mas é necessário que realize uma reflexão crítica, posicionando seu Eu para si.

 

Reflexão Crítica

Intervindo durante o processo psicoterapêutico, de maneira a mostrar-lhe suas escolhas diante esse mundo que se deparou, até o momento, Sol conseguiu apropriarse de algumas escolhas que faz, fundamentadas em seu Projeto de Ser, questionando-as e redimensionando-as, a saber: (1) no tocante às satisfações que dá aos seus pais sobre seus erros e fracassos, atualmente têm consciência de que é uma mulher adulta e casada, que não precisa dar-lhes essa obediência, mas que para isso, precisa ser independente financeiramente, não emprestando mais dinheiro deles. “Meu pai não aceita que eu o pague, diz que estou com pouco dinheiro, mas assim eu crio uma dívida afetiva”; (2) quanto as suas relações com o outro, inclusive no trabalho, não permite mais que a hierarquia seja justificativa para tratarem-na mal. “Não é porque é meu superior que tem o direito de falar do jeito que fala. Que aponte meus erros, mas não precisa ser sem educação” e; (3) sobre o TOC, coloca que está melhorando. “Consigo não voltar atrás para verificar se está tudo desligado em casa. Se eu tenho a certeza que desliguei, saio, mesmo com o coração apertado. Estou duvidando menos do que faço”. Atualmente Sol toma um comprimido do Lexapro, três vezes na semana.

Em busca desta elucidação do Projeto de Ser, a psicoterapia encaminha-se com o propósito de ajudar Sol a conscientizar-se de que nossa existência não é determinada, mas sim construída. Os resultados da nossa relação com o mundo escrevem a nossa história, portanto, podemos também escrevê-la de maneira não alienada.

 

Um Ser em Construção: Considerações Finais

Diante todo o exposto, acompanhamos, mesmo que de maneira breve, a história de uma mulher sufocada por um projeto de ser construído mesmo antes de sua existência.

A maneira dicotômica como interiorizou o mundo, oportunizou vivências contraditórias entre perfeição x imperfeição, certo x errado, dependência x independência, maturidade x imaturidade, alienação x liberdade.

Filha de pais cujo projeto de filhos perfeitos é definido por aquele que não dá trabalho, mas orgulho, Sol fracassa desde seu nascimento, não se mostrando um bebê “bonzinho”. Ao chorar frequentemente, sem que o motivo fosse descoberto, nem pelos especialistas, começou a tirar a tranquilidade dos pais no sucesso de terem uma filha que correspondesse suas expectativas.

Frustrando o projeto inicial que fizeram para ela, opostamente, os pais interiorizaram a imagem da filha imperfeita. Quiçá, a mãe ao contar-lhe o episódio de sua história sobre seu choro, Sol tenha percebido a decepção em sua fala e o quanto dera trabalho para os pais e os deixara impotente. Perceber-se irreflexivamente, como uma criança problemática, por não fazer nada certo segundo os pais, fez sentir-se o patinho feio da família e não amada por eles.

Destarte, no decorrer de sua infância e adolescência, os comportamentos da filha problemática passam a ser foco de controle dos pais. Normas de conduta compõem a cartilha da boa educação de Sol e a culpa, o instrumento de controle e manipulação. Sufocada pelos limites impostos à sua liberdade, Sol busca experienciá-la de maneira opositiva ao projeto dos pais. Mas nessa busca por ações orientadas somente pela liberdade ontológica, Sol não tinha consciência de que suas escolhas ratificavam o Ser diferente e problemático definido por eles. A cada ação diferente do que se esperava dela, um olhar que a julgava e punia pelo seu fracasso em ser um modelo a ser seguido. Foi através das repetições dos empreendimentos de ambos os lados, que a relação dependente entre Sol e seus pais se sintetizou.

A tese dos pais, que compreendia os seus padrões de conduta, foi um dos focos a ser combatido por Sol, mas ao buscar transcendê-la, o fazia negando o ser em situação, não compreendendo que:

O homem é condenado à liberdade, numa perspectiva ontológica, pois não pode deixar de escolher; no sentido antropológico, contudo, ele nunca é inteiramente livre, pois como diz Sartre na Questão de Método, “a alienação está no ápice e na base”, quer dizer, o homem nunca será inteiramente desalienado, já que sua condição de ser-com-os-outros o coloca sempre em poder dos demais [grifo da autora] (Schneider, 2002, p. 168).

Assim, ao direcionar a possibilidade da experiência livre somente aos contextos que compreendem diversão e prazer, excluindo aqueles relacionados aos compromissos e obrigações, Sol paradoxalmente, enquanto festava, perdia a admiração dos pais, projeto também a ser conquistado por ela. Pelo lado dos pais, que a viam incapaz de agir com responsabilidade e ter sucesso em seus empreendimentos, cobriam financeiramente os prejuízos causados.

Mesmo tendo a imagem de Sol como uma pessoa imatura e incapaz, os pais, ao buscarem consertar financeiramente suas ações inconsequentes, oportunizando a Sol e aos outros dois filhos as condições objetivas para que nada os faltassem, e indicando o melhor caminho a ser seguido, mostram o projeto de Ser pais a ser perseguido e mantido, circunscrito num projeto social.

Vemos até aqui a trama da história de Sol tecida pela sua e por várias outras mãos, bem como ajudava a escrever também a história dos pais, da família e da sociedade, tal como coloca Schneider (2002, p. 120):

O homem faz a história, ao mesmo tempo em que é feito por ela. Eis o processo dialético que engendra a realidade sócio-cultural. No entanto, é preciso assinalar que a história não está em meu poder, ela me escapa.

Se por um lado tinha como ponto de referência os modelos impostos para se debater, por outro Sol não aprendera, nem foi ensinada a criar saídas alternativas. Padrões predefinidos e caminhos orientados ajudaram Sol a estabelecer seu ponto de referência no mundo, inclusive seu Eu real fora baseado empiricamente na oposição do ideal imposto, e afetivamente na ausência do reconhecimento de sua capacidade. Um Eu paradoxalmente construído através das faltas: dos impedimentos de se expressar como desejava, da incapacidade de obter sucesso, do afeto que envolve a admiração. Foi assim que Sol conhecia seu Eu: impotente, limitado, incapaz, fracassado, errado, acomodado, dependente dos pais, mas não admirado e não amado.

Com relação ao TOC, Sol o experiencia como um evento ahistórico, singular, desconectado de uma possível construção com o social. Compreendendo como um evento isolado, de sua única responsabilidade e que reforça seu projeto de Ser uma pessoa que faz coisas erradas, Sol busca em sua família de origem o apoio de sua cura.

Mais uma vez a família é acionada para proteger as ações de Sol, agora diante algo inusitado e desconhecido, que os deixam impotentes, como sempre devem ter se sentido na criação desta. Como na época que chorava quando era bebê, a família procura ajuda de um especialista, no caso o psicoterapeuta.

Partindo da história de Sol, de seu projeto de Ser, o trabalho realizado em psicoterapia visa, de uma maneira geral, a ajudá-la a apropriar-se do projeto fundamental que criou para si, buscando altera-lo ou não, mas a partir de seu próprio crivo.

Os caminhos percorridos para a conquista deste objetivo mais amplo envolvem alguns outros mais específicos, tais como: (1) a compreensão de quais valores embutidos no projeto dos pais, fundados numa forte moral religiosa, de uma família patriarcal com certo tom de preceitos machistas, fazem sentido para ela, como aqueles que deseja descartar; (2) o reconhecimento da diferença entre as preocupações e medos fundados em situações reais, objetivas e aquelas apoiadas em situações somente imaginárias e subjetivas; (3) a compreensão do nexo de suas ações que se enquadram no diagnóstico tradicional de TOC, com seu Projeto de ser; (4) a consciência de que precisará criar saídas alternativas para situações em sua vida, ao invés de esperá-las prontas, conhecendo seus valores como ponto de apoio para essas escolhas, e que isso também envolvem riscos, mas que mostrará através de ações mais maduras e protetoras de si, por estarem situadas na síntese de suas limitações e possibilidades, podendo assim responsabilizar-se mais facilmente por elas.

Observo que nos caminhos da psicoterapia que estamos construindo juntas, a liberdade que antes era vivida por Sol como se fosse errada, chegando a considerar-se “muito doida”, hoje é compreendida como uma “loucura com responsabilidade”, uma vez que também em suas diversões, escolhia de maneira consciente não transgredir alguns fundamentos da moral que embasa os valores paternos, por concordar com estes.

Conseguiu também perceber, que o estranhamento que sentia com relação aos pensamentos obsessivos era o mesmo que sentia diante a falta de sentido de algumas regras impostas pelos pais, como, por exemplo, ter que chegar às 22h em casa, enquanto suas amigas poderiam continuar se divertindo, sabendo que ela não iria fazer nada que abonasse sua conduta, mas mesmo assim julgava-se errada, como já dito anteriormente.

Por fim, reconhece agora, que na vida há também limites e regras, obrigações e compromissos, e a maneira como deve lidar com elas requer sintetiza-las as suas possibilidades. E assim, vamos construindo nossos encontros psicoterapêuticos.

 

Referências

Cahet, H.J.P. (2008). Sartre: aspectos de noção de consciência. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina.

Husserl, E. (1988). Elementos de uma elucidação fenomenológica do conhecimento. In HUSSERL, E. Investigações lógicas: sexta investigação: elementos de uma elucidação fenomenológica do conhecimento. São Paulo: Nova Cultural. (publicado originalmente em 1901).

Sartre, J-P. (1997). O Ser e o Nada. Ensaios de ontologia fenomenológica. Rio de Janeiro: Vozes. (Publicado originalmente em 1943).

Sartre, J-P. (2002). Crítica da razão dialética. Rio de janeiro: DP&A. (Publicado originalmente em 1960).

Schneider, D. R. (2002). Novas Perspectivas para a Psicologia Clínica – um estudo a partir da obra “Saint Genet: comédien et martyr” de Jean-Paul Sartre. Tese de Doutorado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

Schneider, D. R. (2011). Sartre e a psicologia clínica. Edufsc: Florianópolis, SC.

 

 

Endereço para correspondência
Sylvia Mara Pires de Freitas
Av. Colombo, 5.790 – Bloco 118 (DPI)
Jardim Universitário
Maringá. Paraná
CEP 87.020-900
E-mail: sylviamara@gmail.com

* Psicóloga. Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC/RS). Especialista em Psicologia do Trabalho (CEUCEL/RJ). Formação em Psicologia Clínica na abordagem existencial (NPV/RJ). Docente dos cursos de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM/PR) e da Universidade Paranaense (UNIPAR/PR).
1 Palestra proferida na mesa redonda do I Congresso Sul-Brasileiro de Fenomenologia & I Congresso de Estudos Fenomenológicos do Paraná, realizado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, de 04 a 07 de junho de 2011.
2 Por questão ética, referir-me-ei a cliente por este pseudônimo.
3 Optei por intercalar o texto com falas da cliente, para melhor compreensão de suas vivências.
4 ESCITALOPRAM (antidepressivo da classe dos inibidores de serotonina. Indicado para tratamento e prevenção de recaídas ou recorrência da depressão, TP, com ou sem agorafobia, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno Obsessivo Compulsivo e Fobia social). Outros nomes comerciais: Cipralex e Exodus.
5 Espírito da época.
6 Corpo/Consciência = Somos.